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Uma sombra se expande sobre Twin Peaks. O horror e o pressentimento acerca de um futuro hediondo e obscuro, quase sempre recorrentes na série e na obras de Lynch, são os protagonistas da décima-segunda parte. A sensação de que algo está prestes a eclodir, presente desde o oitavo episódio – e que ganhou força em meados do último -, toma forma através dos diversos interlúdios – compostos por sequências, semelhante às que ocorrem na segunda temporada, da floresta, enevoada, à noite -, simbolismos e, nesta parte principalmente, o desconhecido.

Somos desafiados, no meio da temporada, a empatizar com ambientes e contextos que, mesmo com rostos familiares, desconhecemos quase que totalmente. E isso, por si só, é capaz de nos deixar tão apreensivos quanto Audrey, na sua primeira aparição. Ou, no pior dos casos, tão indiferentes quanto o Mr. C, em qualquer situação. Afinal, independente da reação, é impossível negar que esse exercício de constante conceptualização, do elemento mais surreal ou da situação mais absurdamente mundana, seja uma das maiores graças de Twin Peaks.

LET’S ROCK

Enfim, descobrimos a natureza do caso Blue Rose da forma mais inesperada possível: clara e simples. Não que o foi dito tenha sido totalmente inédito ou indedutível, mas é ótimo ter a origem do caso finalmente explanada. Como explicado pelo Albert, a operação surgiu da junção do FBI com um seleto grupo das forças militares, com o objetivo de investigar os furos e obstruções no Projeto Livro Azul, tendo como base uma abordagem não tradicional, relatada num livro que dá nome ao caso. Ainda, descobrimos também o estranho método utilizado na escolha de agentes.

Ouça os sons” – ????, S03E01

Apesar de ainda não sabermos a que a frase do Gigante (ou ????), na premiere, realmente se refere, ainda assim podemos dar à ela um certo nível de relevância no desenrolar deste episódio. Primeiro, acompanhamos, através da trilha – e da atuação da Chrysta Bell, que cresce a cada episódio -, o sentimento de realização de Tammy ao finalmente ser contratada na equipe especial de Gordon Cole. Logo em seguida, Diane, que vem sendo posta em vista grossa pela equipe – sem desconfiar de nada disso -, entra no aposento atravessando uma simbólica cortina vermelha aveludada e, após receber a proposta de Albert, profere a frase que dá nome ao episódio. A relação com o The Arm poderia ser mais uma coincidência, se não fosse o característico som distorcido de interferência – que não aparece desde o FWWM.

“ALGUMA COISA ACONTECEU COMIGO!”

Em um curiosa cena, num mercado ~ou loja de conveniência~, o mesmo efeito sonoro se repete. Sarah Palmer (Grace Zabriskie, um dos destaques do episódio), retorna depois da sua pequena aparição na primeira parte, assustando a todos com um aviso sinistro. As indagações que ela faz à atendente – que por sinal, é um tanto semelhante a própria Laura Palmer – lembram as frases soltas de Phillip Jeffries – já mencionado no episódio, na sua breve aparição em Seattle – e realmente não se referem à pacotes de carne defumada ao todo. “Você estava aqui quando eles vieram primeiro?”, talvez se refira a primeira manifestação dos seres de outra dimensão aos habitantes de Twin Peaks. E “Homens estão vindo! Homens estão vindo!” pode servir de aviso sobre a volta deles e, bem, eles tem um gosto por lojas. Afinal, o ventilador-de-teto da casa dos Palmer voltou a girar e nem isso, nem os barulhos vindos de dentro dela servem de bom presságio.

É uma maldita história ruim, não é, Hawk?

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Dougie/Cooper continua sendo… Dougie. No episódio dessa semana, sua aparição fica reservada à uma curta cena, um tanto desanimadora para quem espera pela sua volta. A desventura de Jerry Horne continua, com ele finalmente saindo da parte mais densa da mata, mesmo que ainda perdido.

Na sua loja de cortinas silenciosas, Nadine continua a assistir Lawrence Jacoby, com o seu show do Dr. Amp a todo vapor e pás. A abertura de sempre, seguida da já conhecida propaganda satírica, introduzem mais um discurso, mais uma vez voltado para as grandes corporações e… políticos. De alguma forma, pouco à pouco, eu me sinto cada vez mais convencido a comprar a minha própria pá dourada.

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É sempre ótimo ter Carl (Harry Dean Staton) na tela, seja dando caronas, tocando violão ou acompanhando o que ocorre no seu parque de trailers. A sua conversa com Kriscol foi um, dos diversos momentos mais humanos do episódio.

“VOCÊ NÃO VAI ME CONTAR O QUE ELA FALOU?!”

A parte 12 conseguiu, surpreendentemente, ser tão provocativa quantas as outras. É angustiante a forma quase perversa em que as cenas são desenvolvidas através de um acúmulo de expectativas para enfim terminar da forma mais anticlimática possível. Primeiro, nós, assim com Albert, acabamos nos intrometendo, sem querer, em um momento íntimo, entre Gordon e uma garota francesa. Nós esperamos, assim como Albert, a moça calçar os saltos, retocar o batom, arrumar o vestido e degustar mais um pouco de sua taça de vinho para, finalmente, ela deixar o quarto. Terminamos somente com uma declaração da apreensão de Cole para com o seu parceiro.

A volta da Audrey leva isto para outro nível. Durante toda a temporada, tivemos momentos que envolviam, direta ou indiretamente, à ela e ao que se passou durante esses 25 anos. Neste episódio em específico, o diálogo entre Frank Truman e Benjamin Horne, além de discutir sobre Richard e a estranha casualidade do aparecimento da chave do quarto de Cooper, tem insinuação mais explícita do parentesco do garoto. “Ele não teve um pai”, diz Ben, quase confirmando o horror que se passa na cabeça de todos nós. Ainda assim, a primeira aparição da Audrey não revela nada sobre o seu filho.

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Se Albert incorporou nós durante toda aquela cena com o Cole, ela faz o mesmo aqui. Ficamos sabendo do seu cônjuge com Charlie (o excelente Clark Middleton), resultado, provavelmente, de um contrato entre os dois. Apesar de terem, de certa forma, atingido uma relação “harmoniosa”, Audrey mantém abertamente para o seu marido, um caso com outro homem, também casado. O que aconteceu com Billy? Depois de um longo telefonema e uma discussão sobre casacos, a lua nova e papéis, ninguém, a não ser Tina (a esposa) e Charlie, sabe.

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