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“Eu carrego um tronco, sim. Isso é engraçado para você? Não é para mim. Por trás de tudo há uma razão. Razões podem até explicar o absurdo” – Margaret Lanterman, S01E01

Morte e senescência, os dois principais temas desta encarnação de Twin Peaks, tomam forma na Parte 15 no modo mais doloroso. É com o livramento do peso, da desesperança e da enfim correspondência de um amor de décadas, que se inicia o episódio. Mas, por mais que nos deslumbramos o céu azul de Big Ed e Norma, no fim, somos obrigados a encarar o destino inevitável: o falecimento da Log Lady, a aparição de Phillip Jeffries, transcendem a tela e transmitem uma gravidade real. Um último desafio, que Catherine E. Coulson, em especial, aceita e cumpre com excelência. Não seria tão estranho, se a cena em que o pessoal da delegacia recebe a notícia da passagem da personagem, realmente refletisse a reação da morte da própria atriz. “Hawk, o meu tronco está ficando dourado, o vento está em prantos, eu estou morrendo”.

“ED, VOCÊ ESTÁ LIVRE!”

A figura de Nadine, com a pá dourada nos ombros, com o monte, que dá nome a cidade ao fundo e indo libertar o pobre Big Ed da sua prisão matrimonial, com certeza, é uma das cenas mais icônicas da temporada. A razão para esse ímpeto de extrema sanidade se dá ao Dr. Jacob e o seu programa conspiratório, que exerce uma influência inimaginavelmente boa na personagem. Mas, pela ociosidade característica dela, só nos resta esperar que essa escolha tenha sido realmente decisiva.

O encontro posterior do casal, já mencionado, traz consigo a ansiedade da possibilidade da rejeição, levada pelos anos de espera de um pelo o outro. Um conflito, porém, não é considerado nem premeditado pelos dois. As adversidades na vida, tanto de Ed quanto de Norma, resultam numa aceitação, mesmo que sofrida, na pior das situações imaginadas. As nuances na atuação de Everett McGill – que estava longe das câmeras por mais de uma década – transmitem o peso da idade, a gravidade de uma última grande decepção em vida e, enfim, a satisfação da aguardada união com o seu amor. É uma construção excelente, com um pico emocional delirante, no toque de Norma no ombro do outro, após ela tomar uma decisão final quanto os seus negócios. É um tanto estranho e maravilhoso, deslumbrar essas nuvens no céu azul, em plena Twin Peaks.

“EU VOU ESTAR COM OS RINOCERONTES?”

“Existe uma tristeza nesse mundo, para nós que somos ignorantes de tantas coisas. Sim – nós somos ignorantes de muitas coisas belas, coisas como a verdade. Então a tristeza em nossa ignorância é bastante real. As lágrimas são reais. O que é essa coisa chamada lágrima? Existem até pequenos ductos – ductos lacrimosos – para produzir essas lágrimas, quando a tristeza acontecer.

Então, no dia quando a tristeza vem, nós perguntamos: ‘Irá essa tristeza que me faz chorar, essa tristeza que me faz chorar o coração para fora, acabar um dia?’ A resposta, é claro, é sim. Um dia a tristeza irá acabar.” – Margaret Lanterman, S01E03

Contudo, não foi exatamente ensolarado o dia para Steven Burnett. Becky estava certa, quando ainda na Parte 13, pressentiu o marido estar em apuros, só não era esperado por ela que ele cometesse suicídio. Numa cena, em meio a floresta de Douglas Firs, encontramos ele e Gersten Hayward, tentando convencê-lo de não fazer o pior, durante uma crise. Numa sequência de movimentos compulsivos e frases aleatórias, os dois são flagrados por Cyril Pons (Mark Frost, reprisando o seu papel como jornalista da série original), que após o disparo de uma arma, corre para o Fat Trout Trailer Park, avisando Carl sobre o ocorrido.

Mark Frost, co-criador e roteirista da série, como Cyril Pons

Relacionamentos também não parecem irem ao certo com James Hurley. No Roadhouse, após simplesmente cumprimentar Renée (a moça que se emocionou com a apresentação dele na parte 13), ele acaba se envolvendo numa briga com Chuck, com quem ela é comprometida. Freddie Sykes, acompanhante de James, resolveu tudo com um simples soco. Porém, o resultado não poderia ser pior: os dois, pelo estrago feito pela luva verde, tanto em Chuck quanto no seu amigo, acabaram presos – em companhia de Chad, um homem bêbado e Naido.

“QUEM É JUDY?!”

Acompanhamos com o Mr. C até onde os postes e linhas elétricas levam. A loja de conveniência se revela de uma forma bastante familiar: o visual, da sua primeira aparição nos anos 50, continua o mesmo e, no interior, o papel de parede do lugar de antigas reuniões aponta para os sonhos de uma inquieta Laura Palmer, nos últimos dias de sua vida. Dentre os woodsman, um misterioso espírito – em forma de uma senhora, semelhante a Mrs. Tremond – e até mesmo o próprio Phillip Jeffries, o encontro com Richard Horne foi o mais inesperado, com uma descoberta significativa: mesmo a Audrey sendo realmente a mãe do garoto, felizmente, pela reação do Evil Coop ao saber disso, podemos dizer que ele pode não ser o pai. Amém.

David Bowie é, sem dúvidas, insubstituível e a sua mínima aparição no revival, mesmo que somente em flashbacks de Fire Walk With Me, já é suficiente para aquecer o coração. Não era ele, infelizmente, quem dublava a “evolução” de Phillip Jeffries – Nathan Frizzell é quem faz o excelente trabalho de emular o personagem -, mas o momento não deixa de ser especial. De uma chaleira à uma árvore/neurônio, qual é a melhor forma de não realizar um recast?

Leia mais sobre Phillip e Judy no post mais recente sobre teorias.

SHARP DRESSED MAN

“Onde antes havia um, agora estão lá dois. Ou sempre houveram dois?” – Margaret Lanterman, S02E22

Ligue para Gordon Cole”. Em Las Vegas, finalmente temos o gatilho para um dos momentos mais aguardados do Revival. Uma breve cena de Sunset Boulevard (1950), foi o suficiente para despertar algo profundo no interior do Agente Cooper. Ele engatinha até uma tomada, onde enfia o cabo de um garfo, causando um curto circuito.

No final da Parte 15 ainda, mais uma personagem desconhecida se envolve numa situação estranha, quando, assim como Dougie/Cooper, começa a engatinhar, em meio ao público da apresentação do The Veils, até de repente começar a gritar aleatoriamente. Apesar de não estarem exatamente em sincronia, as duas cenas compartilham coisas em comum. Anteriormente, no episódio, há uma possível indicação de que esse é, realmente, o momento chave para o retorno de Cooper. Pessoas vêm especulando em fóruns que, talvez, a música tocada no Roadhouse como “a mais pedida”, seja uma forma de predizer o acontecimento, já que “Sharp Dressed Man” é uma descrição um tanto apropriada para o Dale.

Audrey Horne, por outro lado, aparenta estar longe de se libertar do seu delírio. As cenas entre ela e Charlie, desde a primeira aparição deles, seguem a cronologia mais explicitamente distante dos outros núcleos da série. Enquanto aparentemente, nos outros lugares, se passam dias, os dois continuam presos numa discussão eterna sobre ir ou não ao Roadhouse. Desta vez, a personagem passa por uma auto revelação repentina, não conseguindo associar o seu marido, na sua frente, com a ideia prévia que ela tinha dele.

 

“Isso é o agora, e ‘agora’ nunca mais será de novo. Nós viemos do elemental e retornamos para ele. Há uma mudança, mas nada está perdido. Há muito o que não podemos ver – o ar, por exemplo, em boa parte do tempo – mas, sabendo que a nossa próxima respiração seguirá a nossa última sem falhar, é um ato de fé. Não é? Tempos obscuros sempre irão vir, como a noite segue o dia. Confie, e não trema na face do desconhecido. Isso não deve se manter desconhecido por muito tempo” – Margaret Lanterman, The Secret History Of Twin Peaks

 

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