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“Você está no caminho, não precisa saber aonde o leva, só siga-o” – Hawk Hill, S02E09

O sentimento de inércia, averso a passagem do tempo – ou no caso de Jerry Horne, ao uso de alucinógenos, abrindo o episódio perdido em meio à mata de Douglas Firs, enquanto liga para o seu irmãocontinua a seguir o retorno de Twin Peaks: seja no contraste de geração e tecnologia, a inadequação de Dougie/Cooper ao ambiente, ou na continuidade de mistérios que seguem a desabrochar ao longo dessas sete partes, a sensação persiste, propositalmente, em despertar em boa parte da audiência, levando o incômodo naqueles que buscam elementos familiares, ou o formato das temporadas passadas. Se este for o seu caso, não se preocupe: não há nada de errado na sua experiência e, talvez, é exatamente assim que você deveria se sentir. Se lembre das sábias palavras de Hawk e venha acompanhar o review do episódio dessa semana.

 “ESCREVA ISSO NO SEU DIÁRIO”

Sem título

Finalmente, logo após a sequência do telefonema entre os irmãos Horne, vemos a mensagem de Annie Blackburn, intermediada por Laura Palmer e o seu diário – como é visto em Fire Walk With Me -, chegar a alguém. Assim, nos é permitido um olhar ao passado, quando Hawk e o “outro” Xerife Truman chegam ao fim do enigma da Log Lady e dão um passo para o encontro do Good Cooper. Através dos questionamentos de Frank, revisamos as atitudes suspeitas de Leland e como as páginas do diário foram parar em uma das portas das divisórias do banheiro da delegacia. Ainda, uma das quatro folhas está desaparecida e mais uma questão se levanta: Além de revelar o seu algoz, que outro conteúdo Laura guardaria nessa última parte? Ela também está escondida, ou será que Bob a deu um fim?

“QUE BOM OUVIR A SUA VOZ”

Mais uma vez, temos a expectativa de uma mínima aparição do Xerife Harry S. Truman (Michael Ontkean, que se aposentou definitivamente da atuação) despedaçada. Porém, quando ouvimos a voz de Warren Frost e de surpresa ainda somos agraciados com uma vídeo conferência do Dr. Hayward e Frank, toda a cena ganha um toque especial, não só por esse ser mais um momento de embate de geração e tecnologia – evidenciando, novamente, a passagem de 25 anos -, mas pela presença do ator, pai do co-criador da série, sendo exibida justamente no dia dos pais norte-americano.

<3

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Para quem ansiosamente esperava e matutava sobre que fim se deu Audrey Horne, temos uma breve menção: logo após ela ter sido salva por Pete Martell – como é mostrado na História Secreta de Twin Peaks -, na explosão do Saving and Loan, ela entra em coma. Além disso, a misteriosa visita do Bad Cooper à ela no hospital não nos deixa com boas esperanças – principalmente com um outro Horne de origem desconhecida perambulando por aí…

Temos uma leve ideia do que aconteceu com o caminhão dirigido pelo o bendito cujo já citado, depois do ocorrido no episódio passado. Pela ausência do fazendeiro (Edward ‘Ted’ Dowling) e o comportamento suspeito e apreensivo anterior dele, suposto dono do veículo, no encontro marcado por Andy, ficamos a imaginar que tipo de esquema ou força maior envolve o delinquente Richard Horne. Apesar de ser a resposta mais fácil, eu duvido um tanto que o excêntrico traficante de drogas do episódio passado tenha sido o responsável por limpar os rastros do rapaz, muito menos que tenha sido o próprio. Quem sabe?

“HÁ UM CORPO, COM CERTEZA”

A frase que dá nome ao episódio foi retirada de uma das sequências mais arrepiantes até agora. A cabeça desaparecida, o corpo pertencente à Garland Briggs – morto a mais de duas décadas, mas fresco como se ainda não tivesse completado o seu sétimo dia e tão novo como na sua última aparição vivo -, a figura obscura andando pelo corredor do necrotério e o som, crepitante e atmosférico que se segue, formam um quadro característico do horror Lynchiano. Para enfatizar isso, como se rindo de nós, o próprio David Lynch surge, na cena seguinte, como Gordon Cole, assobiando a melodia de “Engel“, da banda Rammstein (sim, é essa música mesmo!)

Temos finalmente uma outra aparição da criatura de cabeça flutuante da segunda parte. É só impressão minha ou, tirando a parte de tinta, ele se parece muito com uma das figuras que aparecem acima da loja de conveniência em FWWM?

Temos finalmente uma outra aparição da criatura de cabeça flutuante da segunda parte. É só impressão minha ou, tirando a parte de tinta, ele se parece muito com uma das figuras que aparecem acima da loja de conveniência em FWWM?

 

“NO F*CKING WAY!”

“Damn Good Coffee”, recita Lynch – através de Cole -, como se com a referência reconhecesse o presente que está nos dando. Nos recepcionando calorosamente, Laura Dern apresenta uma Diane que, por trás da rispidez e evasão, guarda a angústia e apreensão quanto a um trauma no passado. Cigarro na mão e cabelo Chanel, a presença de Diane é sublime e não menos icônica que qualquer outro elemento da série. Em poucos minutos de tela, é quase impossível não simpatizar com o trio do FBI e a ex-secretária.

O confronto, enfim, de Diane e o Bad Cooper, nos convida a mais um novo mistério que só no olhar de Dern nós conseguimos discernir a gravidade: o último encontro entre os dois, sem dúvida, guarda em si uma memória de abuso – quaisquer que seja o tipo. Conseguimos sentir o peso e agonia do pesadelo de ver alguém tão próximo, mas tão fora de si mesmo, no abraço entre ela e Gordon.

“PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE STRAWBERRY…”

Curiosidade sobre a casa no Rio de Janeiro (!!!) do Bad Cooper: A imagem que foi usada para a montagem é na verdade da mansão do Al Pacino, na Califórnia.

Curiosidade sobre a casa no Rio de Janeiro (!!!) do Bad Cooper: A imagem que foi usada para a montagem é na verdade da mansão do Al Capone, na Califórnia.

 

Bad Cooper, por sua vez, não planeja ficar na prisão por muito mais tempo e, como um golpe na palavra dada a Gordon, é o próprio Dwight Murphy (James Morrison), diretor do presídio federal, que o libera. Mais indagações nos são deixadas, com a seguinte frase: “Aquele cachorro tinha quatro pernas: a que você encontrou no meu porta-malas;as outras três saíram com as informações que você está pensando agora… Duas pessoas que você não quer andando por aqui, se algo de ruim acontecer comigo…“.

Que podre tão terrível no passado de Dwight o fez aceitar essa chantagem? Quem diabos são o “Mr. Strawberry” e o tal Jon McCluskey? Enfim, Cooper deixa a prisão, acompanhado por Ray Monroe – será que ele tem conhecimento de que Darya está morta e que o Doppelganger sabe da conspiração entre os dois para mata-lo?

DOUGIE “COBRA” JONES

Ausente em mais da metade do episódio, voltamos a acompanhar Dougie/Cooper  e sua rotina em transe. Dividido entre desenhos misteriosos e múrmuros de frases repetidas, como foi deixado no episódio passado, o nosso Good Coop finalmente demonstra traços mais expressivos de sua condição original. A saída de fininho do colega do Jones, na breve menção a polícia e as discussões de Jane-E, com fogo nos olhos, precedem a cena tensa – mas não menos cômica – do atentado de Spike, em frente à Lucky 7 Insurance. A sequência é deliciosa na sua absurdez. Com o The Arm evoluído em árvore brotando do chão, guiando os golpes de Cooper contra o assassino, seguido dos interrogatórios – quase que emulando o ambiente dos realities show policiais, com direito à uma vinheta centralizando a arma do crime e o pedaço de carne da mão compressada do assassino grudada nela -,  pós o acontecido. Esperemos que a repercussão do atentado sirva de caminho para a descoberta do nosso Dale original.

“ISSO, MINHA QUERIDA, É UMA LONGA HISTÓRIA”

Será que o barulho vem do antigo esconderijo da Audrey?

Será que o barulho vem do antigo esconderijo da Audrey?

 

25 anos depois, acompanhamos Benjamin Horne (Richard Beymer) dar continuidade a sua prometida busca por uma boa conduta, cumprindo – pelo menos até onde vimos – o objetivo muito bem na sua senescência. Abdicado das investidas descaradas do passado, ele acompanha a sua mais nova secretária (Ashley Judd) na busca pelo som, agudo e misterioso, na sala que dá para o seu escritório. Vemos finalmente o destino do chaveiro do antigo quarto de Cooper no Great Northern, trazendo memórias à Ben junto ao completo desconhecimento de Bervely. Uma especulação seria de que som, poderia ser Josie, visto que Ben, ao mencionar sobre a chave, ele fala onde Dale Cooper tomou um tiro revelado depois que tinha sido Josie a autora do crime.


Os dois terminam com uma aproximação mais intima, mas é o comportamento de Paige que é colocado a duvida, quando somos apresentados ao seu marido, enfermo e ciumento.

“ALGUÉM VIU O BILLY?”

Deveríamos chamar de "Efeito Maddy" essa coisa de parentes serem extremamente parecidos?

Conheça o “Efeito Maddy”, o fenômeno que aflige parentes extremamente parecidos na cidade de Twin Peaks.

 

Para quem tem a boa memória, ou re-assistiu recentemente as duas últimas temporadas, não há praticamente nada de novo ou fora do caráter de Twin Peaks, nas cenas “arrastadas” que vez ou outra envolvem a tela. Visto, por exemplo, o momento já citado da explosão do banco da cidade, onde acompanhamos um senhor, lento e calmamente, se locomover ao pegar um copo d’água para Audrey, presa propositalmente nas portas do cofre. Tudo isso em plena series finale – quando não havia a miníma perspectiva de uma continuação 25 anos depois.

Por fim, repito: não há nada de errado em se sentir frustrado quanto ao ritmo, pois é proposital. Mas nem por isso evite em se sentir em casa no Double R, com uma torta de cereja e uma boa xícara de café, ao som de “Green Onion”, ao final do episódio. Twin Peaks se encontra numa posição de luxo, onde não há mais a lamina do cancelamento pairando sobre a sua cabeça. Não há a necessidade da convenção de métodos para prender o expectador a tela – já que o próprio conteúdo e universo da série o faz -, nem o medo da sua história não ser contada, ou alterada por dedos de altos executivos. Assim, depois de ter o seu grande mistério revelado a contra gosto e de lutar para que o retorno fosse como realmente deveria ser, David Lynch e Mark Frost têm a certeza de 18 episódios completos. A cidade, seus mundos e habitantes são pertencem totalmente aos dois. Então, que lugar melhor seria, senão Twin Peaks, para brincar com as normas e expectativas de todo um meio e o seu público?

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