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Tradução feita pelo Igor Leoni do artigo que compartilhamos na semana passada.

Link pro artigo original aqui.

LOS ANGELES: David Lynch está reclinado em sua cadeira, um sorriso endiabrado surge ocasionalmente em seu rosto misterioso enquanto faz parábolas sobre pesca e galinhas, parecendo uma espécie de Jesus com um topete.

Aos 71 anos, a lenda do cinema parece ter anunciado sua aposentadoria como diretor, mas é difícil saber, já que o significado de seu discurso é frequentemente mal interpretado em seu jogo de palavras misterioso.

Lynch, considerado um dos maiores diretores norte-americanos de sua geração, está promovendo seu último projeto, a antecipada continuação da icônica série dos anos 90 “Twin Peaks”, prevista para estrear em 21 de maio.

Ele passou os últimos anos dirigindo clipes de música, curtas e se aventurando como comediante, mas não dirige um longa-metragem desde o thriller surrealista “Império dos Sonhos”, que faturou apenas 4 milhões ao redor do mundo 11 anos atrás.

“As coisas mudaram muito nesses 11 anos. E uma dessas mudanças foi a forma que as pessoas passaram a olhar para longa metragens, o fato de que muitos filmes não arrecadam uma boa bilheteria, mesmo sendo bons filmes”, disse Lynch.

“E as coisas que estavam arrecadando uma boa bilheteria não eram coisas que eu estava interessado em fazer”.

Ao ser questionado se isso significava que ele havia feito seu último longa-metragem, ele desconversou, dizendo que a TV a cabo era um “lugar lindo para se estar”.

Então isso é um sim?

“Eu acho que sim”, ele respondeu, mas esse é um furo no qual não apostaria minhas economias.

– Delírio Febril –

O arrebatador mistério da primeira temporada de “Twin Peaks”, quem matou a estudante Laura Palmer, capturou a imaginação de toda a geração dos anos 90 e foi uma espécie de vanguarda para um novo estilo de televisão que se assemelhava ao cinema.

A admiração do público e da crítica declinou quando a segunda temporada revelou o culpado, mas a série continua popular o bastante para que seu retorno seja considerado um dos maiores eventos televisivos do ano.

Jornalistas que se juntaram em um hotel na Sunset Strip para conversar com Lynch foram avisados para evitarem perguntas relacionadas à “tramas, enredos, personagens e locações”, então até mesmo perguntas com sentido amplo sobre a nova série receberam respostas lacônicas, o que fez a conversa seguir um rumo mais genérico.

Nas obras com autoria de Lynch, de “Eraserhead” à “Veludo Azul” e além, você nunca tem certeza do que é realidade e do que pode ser apenas um estranho e lúcido delírio febril.

O mesmo pode ser dito da experiência de entrevistá-lo.

“Eu digo que ideias são como peixes. Você almeja aquele peixe, está com a isca no anzol dentro da água, e lá das profundezas, uma ideia, ou um peixe, irá nadar até a superfície e você irá pegá-la”, ele diz de sua filosofia como cineasta.

Lynch não especifica qual tipo de peixe representa suas ideias, mas elas soam suspeitosamente como um desvio.

“Então a próxima coisa é, você ama aquele peixe? Você ama aquela ideia? Se você ama, então ela é como um pequeno peixe que representa muito pra você”, ele diz entusiasmado.

– Ovos de Ouro –

Quando questionado se achava que a revelação do assassino de Laura Palmer tinha também assassinado a série original, ele começa a contar uma história sobre uma galinha que botava ovos de ouro, e como não seria “uma boa coisa” se alguém matasse essa galinha.

Lynch, que medita duas vezes por dia por mais de 40 anos, diz que não pensou muito se a série será direcionada aos fãs antigos de “Twin Peaks” ou a um novo público, e que não se preocupa com audiência ou críticas.

“Como eu sempre digo, existe um ditado védico: ‘O homem controla apenas suas ações, nunca os frutos de tais ações”, ele diz.

“Então quando você finaliza algo, você perde o controle e fica por conta do destino”.

Ele fala mais sobre suas ideias, a diferença entre cinema e TV (usando uma metáfora sobre mosquitos), e em um piscar de olhos, 20 minutos se passaram e nós sabemos menos sobre “Twin Peaks” do que sabíamos antes da entrevista começar.

Para finalizar, Lynch coloca que às vezes, quando uma produção leva muito tempo para ser finalizada, ela acaba sendo lançada em um mundo diferente daquele em que começou a ser feita.

“E às vezes isso é, estranho”, ele conclui enigmaticamente.

“Estranho é a melhor palavra para encerrar isso”, sussurra um jornalista enquanto David Lynch, pescador de ideias, dono de galinhas dos ovos de ouro e Jesus descolado, deixa o aposento.

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