Acompanhe o TPBR nas redes sociais

Contém spoilers.

A terceira parte é iniciada com a exploração de outros universos que podem ser partilhados do Black Lodge, onde vemos uma moça de vestido rosa sem os olhos, barulhos fortes, o rosto de Major Briggs flutuando e Ronette Pulaski (creditada como American Woman). E então Cooper, nessa dimensão, entra em um aquecedor e sai pela tomada de uma casa onde encontra-se sua segunda cópia: Dougie Jones, que imediatamente é levado para o Black Lodge durante a fuga da primeira réplica de Dale Cooper. A chegada de Dougie ao Lodge supõe que sua existência esteja relacionada a Bob, visto que Mike lhe diz “Alguém fabricou você“, quando anteriormente vemos Bob e Dougie vomitando suas garmonbozias, mas apenas Dougie é levado de volta ao Black Lodge.

 

A conexão de Dale ao Black Lodge é ainda presenta, visível no estado não natural do personagem e suas visões sobrenaturais relacionadas à Sala Vermelha, como as máquinas premiadas do cassino ou os avisos diretos de Mike a Coop. Outro ponto é o reconhecimento de Bob sobre Philip Jeffries durante o interrogatório com Gordon Cole, Albert Rosenfield e Tamara Preston, reforçando a ideia da presença de Philip no Black Lodge. E o que deve ser abordado posteriormente durante a temporada, é a morte de Major Garland Briggs, onde Dale Cooper é mencionado como sua companhia um dia antes de sua morte, história já esclarecida por Bobby Briggs e pela investigação de Tamara Preston, que dá conexão ao livro “A História Secreta de Twin Peaks“.

A mudança da cidade de Twin Peaks e do FBI com o desaparecimento de Dale Cooper é relatada ao passado, que é o exato ponto de vista do espectador junto com os habitantes da cidade e os parceiros de trabalho de Coop (além da resolução sigilosa dos atos feitos por Bob no corpo de Dale), onde segredos remotos podem ser revelados através das memórias. A quinta parte de Twin Peaks já está disponível na Netflix aqui no Brasil e segunda-feira, dia 12, a Parte 6 já estará no catálogo!


A Caixa em Nova York serve como meio temporário para seres que deixam, ou que estão ligadas com o Black Lodge (ou não). Uma criatura  aparece, quebrando a caixa, matando Sam e Tracey no primeiro episódio. No segundo episódio,  vemos que “good”  Cooper entrou na caixa alguns minutos antes da criatura.

todd

Possivelmente o bilionário mencionado por Sam, seja o “evil” Cooper, que tem forte interesse em ficar fora do Lodge. É provável que ele esteja conduzindo essa pesquisa por meio do Duncan Todd.

Ele financia a caixa e contrata pessoas para assisti-lo sabendo muito bem o que vai acontecer com você. Quando seu (presumivelmente) assistente lhe pergunta por quê ele (Evil Cooper) o deixa fazer isso com ele, ele diz para ele não ter alguém como ele (Evil Cooper) em sua vida.

Parece que de alguma forma, é sabido sobre o tempo em que “good” Cooper devia ser devolvido e o “evil” Cooper voltaria para o Black Lodge. Também pode ser conhecido “onde” que ia acontecer. Ou, talvez, ele deveria apenas abrir as cortinas para onde o Evil Cooper estava dirigindo e trocar facilmente, mas ele é enviado para o prédio.

“Evil” Coop, monta a caixa de vidro para prendê-lo no lugar onde ele estava indo para retornar, fora deste edifício em Nova York. A máquina de alguma forma o aprisiona e o envia para a caixa no espaço (que também é uma caixa). O visual dele flutuando e depois sendo pego em quadrados cada vez menores, juntamente com os sons de portas de prisão batendo, indicando  que ele está sendo preso.

The Mauve Zone

TwinPeaks3-3

O termo foi tirado escrita de Kenneth Grant. Grant foi a primeira pessoa a associar o ocultismo ocidental com os fenômenos de abdução alienígena e o  primeiro a realmente enfatizar o papel de Jack Parsons na história do ocultismo. Ambos os temas desempenham um papel importante no livro de Mark Frost (História Secreta de Twin Peaks).

Grant descreve a “The Mauve Zone” como uma espécie de mundo auto-contido na própria borda da realidade entre o que podemos experimentar (como seres humanos) e o que só podemos conceber como não-existência.

Grant acreditava que a manipulação mágica de nossa realidade poderia ser feita com a ajuda de seres alienígenas na The Mauve Zone, que poderia ser visitada em um tipo particular de sono (como um coma), que havia seres lá que poderíamos considerar monstros e que enviou mensagens para a nossa realidade via fenômeno como OVNIs (ou aparições como o Gigante).

Grant também creditou The Mauve Zone como sendo a fonte de coincidências significativas, sincronicidade e “acidentes felizes” em nosso mundo (como aqueles aproveitados pelas técnicas de detecção mais intuitivas de Cooper).”

 

 

A Criatura

A mulher sem olhos avisa “good” Cooper para que ele não fale, aparentemente para que ele não atraia a atenção da “mãe”, dito depois por uma segunda mulher (interpretada pela atriz Phoebe Augustine, Ronette Pulaski anteriormente e agora creditada como “American Girl”) que avisa também a “good” Cooper para não falar pois chamará a atenção da sua “mãe”. “Good” Cooper troca de lugar com o Cooper/Dougie. A sala de máquinas está ligada com a caixa de vidro, já que Cooper apareceu lá primeiro. Talvez a “mãe” esteja tentando romper a realidade e matar o “good” Cooper.

A máquina em torno da caixa de vidro parece ter sido criada originalmente para ser uma armadilha para Cooper  ou para prendê-lo na sala de máquinas. Se não fosse por essa armadilha ele voltaria para o mundo real através da caixa de vidro, mas foi enviado de volta. O objetivo poderia ter sido trazer “good” Cooper antes da Mãe, que teria matado ele, mas suas “filhas” impediram para salvá-lo.

O que se sabe também é que a caracterização e inspiração vem das pinturas de David Lynch e seu gosto pelo pintor Francis Bacon.

Quadros da exibição "The air is on fire"

                                             Quadros da exibição “The air is on fire” , David Lynch

Francis Bacon, Portrait of a Man ,1953

Francis Bacon, Portrait of a Man ,1953

AVISO: CONTÉM SPOILERS

Foram mais de duas décadas de espera para que a promessa de Laura Palmer fosse cumprida – “eu verei você novamente em 25 anos” – e no dia 21 de maio de 2017, Laura finalmente reapareceu e quase timidamente nos pergunta se a reconhecemos. Este foi o primeiro sinal de David Lynch e Mark Frost para nos avisar que de fato, apesar de ser uma terceira temporada da série cult dos anos 90, o tempo mudou Twin Peaks.

A começar pela abertura da série: o pássaro, a serralheria Packard e a famosa entrada da cidade de Twin Peaks se foram. No lugar, um close do retrato de Laura Palmer serve de fundo para o título, seguido por uma sequência familiar de uma cachoeira e fechando com imagens do black lodge. A trilha sonora marcante de Angelo Badalamenti permanece a mesma.

Na primeira cena inédita, temos um diálogo entre o Gigante e Dale Cooper.

“Lembre-se: 430, Richard e Linda. Dois pássaros com uma pedra”.

A atmosfera dessa introdução misteriosa nos diz que nada do que virá a seguir é o que parece ser. O enredo do retorno de Twin Peaks possui muito mais do mistério e enigmas vistos nos filmes de Lynch­, tais como Eraserhead, Lost Highway­­ e Mulholland Drive.­ Os segmentos criados durante o episódio nos dá a sensação de que tudo está conectado e nós estamos entrando cada vez mais a fundo no universo Lynchiano, nos seduzindo de forma perturbadora.

Diferente do piloto exibido nos anos 90 que deu ao telespectador uma linha de raciocínio lógica à ser seguida, – descobrir quem era o assassino de Laura Palmer – dessa vez não sabemos ao certo onde procurar por respostas, pois as perguntas se tornaram mais complexas. Um dos quebra-cabeças nos é introduzido logo no início: a caixa de vidro. O que ela realmente é e para qual fim foi construída? O que era a criatura que matou os jovens Sam e Tracey em Nova York? Mesmo criadas teorias sobre isso, quando se trata de Lynch tudo não passa de meras especulações.

Foi incluído também o uso de novos elementos gráficos, como o ser do black lodge que se identifica como “o braço”, evolução do membro de MIKE – o braço faz o papel de um intermediário e diz a Cooper que seu doppelganger deve retornar antes que ele possa sair. Não só para a criação de novos seres, a tecnologia auxiliou na composição brutal dos assassinatos que ocorreram durante as primeiras partes da nova temporada, algo visualmente incomum e que não agradou à todos. Entretanto, há quem diga que a falta de veracidade dessas cenas fazem sentido dentro da temática surrealista que está ainda mais evidente nesta nova etapa da série.

Nos deparamos com cenas sutis e nostálgicas ao ver os irmãos Horne no Great Northern Hotel em contraste com momentos mais misteriosos como a ligação entre Margaret/The Log Lady e o subdelegado Hawk, momentos antes do mesmo encontrar a entrada para o black lodge.

“As estrelas se voltam e o tempo se apresenta.”

Tudo parece novo, mas estamos redescobrindo até mesmo quem são as personagens que já conhecemos. Retornar para um lugar que passou por mudanças ao longo de 25 anos faz com que o telespectador pense “parece que já estive aqui, mas não tenho certeza”. O trabalho de David Lynch como diretor é marcante, dando a certeza de que aquilo que estamos vendo na tela é fruto de sua mente.

Nos resta então, continuar acompanhando os mistérios que agora não rodeiam somente Twin Peaks. Neste retorno mais do que nunca as corujas não são o que parecem ser.

Contém spoilers.

Com a iniciativa arcaica de revisitar a história da cidade, o retorno de Twin Peaks explora a noção do tempo e o peso do passado e seus novos rumos que estão ligados ao contato com o sobrenatural. Assim ligando o mistério do Agente Cooper com as novas subtramas, ainda que algumas não tenham uma resposta concreta até o momento.

Apegado a sua linguagem mais recente de filmes como Mulholland Drive (2001) e Inland Empire (2006), David Lynch insere mais elementos ao universo da série, assim enriquecendo sua atmosfera (e deixando o público com ainda mais dúvidas). Apesar da perceptível ligação com o passado, o desenvolvimento dos personagens clássicos ainda é mínimo, nos introduzindo aos seus novos cotidianos. A série permanece dialogando com o reflexo da sociedade com uma nova visão, apenso ao humor negro tendo como base do mais incomum ao mais convencional das pessoas e a crítica ainda prevalecente ao comportamento social do ser humano.

Engana-se quem acha que Twin Peaks: The Return liga os pontos deixados pelo fim da segunda temporada e do filme de 92. Lynch dá mais peças para o quebra-cabeça infinito da série. A primeira cena da terceira temporada mostra o Gigante e Dale Cooper, em preto e branco, em um ambiente clássico e rústico, que não aparenta ser o Black Lodge, mas onde os personagens se comportam como se estivessem em tal lugar, visto que estão sentados de frente para o outro e o Gigante fala de trás pra frente revertido.

Na segunda parte, o subdelegado Hawk encontra a entrada para o Black Lodge na floresta enquanto conversa com Margaret, a Senhora do Tronco. Mais tarde, vemos Dale autorizado por Laura a deixar o Black Lodge e vemos uma saída através das cortinas vermelhas que dá para uma autoestrada, onde sua réplica está dirigindo. E então, Dale é interrompido pelo doppelganger do Braço Esquerdo. Logo após deixar o Black Lodge, Cooper vai parar na caixa de vidro, situada em Nova York, introduzida na primeira parte, onde mais tarde vemos que logo depois será ocupada por uma entidade que ataca os personagens apresentados anteriormente.

A morte de Laura e Leland Palmer, no entanto, não impede que suas almas (ou réplicas) vaguejem pelo Black Lodge… deixando a questão sobre as ocorrências que levam à saída de Cooper da sala vermelha e como ele sucede ao mundo real. Resta acompanhar a nova temporada de Twin Peaks! Toda segunda-feira, duas partes disponíveis na Netflix aqui no Brasil.

Tradução feita pelo Igor Leoni do artigo que compartilhamos na semana passada.

Link pro artigo original aqui.

LOS ANGELES: David Lynch está reclinado em sua cadeira, um sorriso endiabrado surge ocasionalmente em seu rosto misterioso enquanto faz parábolas sobre pesca e galinhas, parecendo uma espécie de Jesus com um topete.

Aos 71 anos, a lenda do cinema parece ter anunciado sua aposentadoria como diretor, mas é difícil saber, já que o significado de seu discurso é frequentemente mal interpretado em seu jogo de palavras misterioso.

Lynch, considerado um dos maiores diretores norte-americanos de sua geração, está promovendo seu último projeto, a antecipada continuação da icônica série dos anos 90 “Twin Peaks”, prevista para estrear em 21 de maio.

Ele passou os últimos anos dirigindo clipes de música, curtas e se aventurando como comediante, mas não dirige um longa-metragem desde o thriller surrealista “Império dos Sonhos”, que faturou apenas 4 milhões ao redor do mundo 11 anos atrás.

“As coisas mudaram muito nesses 11 anos. E uma dessas mudanças foi a forma que as pessoas passaram a olhar para longa metragens, o fato de que muitos filmes não arrecadam uma boa bilheteria, mesmo sendo bons filmes”, disse Lynch.

“E as coisas que estavam arrecadando uma boa bilheteria não eram coisas que eu estava interessado em fazer”.

Ao ser questionado se isso significava que ele havia feito seu último longa-metragem, ele desconversou, dizendo que a TV a cabo era um “lugar lindo para se estar”.

Então isso é um sim?

“Eu acho que sim”, ele respondeu, mas esse é um furo no qual não apostaria minhas economias.

– Delírio Febril –

O arrebatador mistério da primeira temporada de “Twin Peaks”, quem matou a estudante Laura Palmer, capturou a imaginação de toda a geração dos anos 90 e foi uma espécie de vanguarda para um novo estilo de televisão que se assemelhava ao cinema.

A admiração do público e da crítica declinou quando a segunda temporada revelou o culpado, mas a série continua popular o bastante para que seu retorno seja considerado um dos maiores eventos televisivos do ano.

Jornalistas que se juntaram em um hotel na Sunset Strip para conversar com Lynch foram avisados para evitarem perguntas relacionadas à “tramas, enredos, personagens e locações”, então até mesmo perguntas com sentido amplo sobre a nova série receberam respostas lacônicas, o que fez a conversa seguir um rumo mais genérico.

Nas obras com autoria de Lynch, de “Eraserhead” à “Veludo Azul” e além, você nunca tem certeza do que é realidade e do que pode ser apenas um estranho e lúcido delírio febril.

O mesmo pode ser dito da experiência de entrevistá-lo.

“Eu digo que ideias são como peixes. Você almeja aquele peixe, está com a isca no anzol dentro da água, e lá das profundezas, uma ideia, ou um peixe, irá nadar até a superfície e você irá pegá-la”, ele diz de sua filosofia como cineasta.

Lynch não especifica qual tipo de peixe representa suas ideias, mas elas soam suspeitosamente como um desvio.

“Então a próxima coisa é, você ama aquele peixe? Você ama aquela ideia? Se você ama, então ela é como um pequeno peixe que representa muito pra você”, ele diz entusiasmado.

– Ovos de Ouro –

Quando questionado se achava que a revelação do assassino de Laura Palmer tinha também assassinado a série original, ele começa a contar uma história sobre uma galinha que botava ovos de ouro, e como não seria “uma boa coisa” se alguém matasse essa galinha.

Lynch, que medita duas vezes por dia por mais de 40 anos, diz que não pensou muito se a série será direcionada aos fãs antigos de “Twin Peaks” ou a um novo público, e que não se preocupa com audiência ou críticas.

“Como eu sempre digo, existe um ditado védico: ‘O homem controla apenas suas ações, nunca os frutos de tais ações”, ele diz.

“Então quando você finaliza algo, você perde o controle e fica por conta do destino”.

Ele fala mais sobre suas ideias, a diferença entre cinema e TV (usando uma metáfora sobre mosquitos), e em um piscar de olhos, 20 minutos se passaram e nós sabemos menos sobre “Twin Peaks” do que sabíamos antes da entrevista começar.

Para finalizar, Lynch coloca que às vezes, quando uma produção leva muito tempo para ser finalizada, ela acaba sendo lançada em um mundo diferente daquele em que começou a ser feita.

“E às vezes isso é, estranho”, ele conclui enigmaticamente.

“Estranho é a melhor palavra para encerrar isso”, sussurra um jornalista enquanto David Lynch, pescador de ideias, dono de galinhas dos ovos de ouro e Jesus descolado, deixa o aposento.