Acompanhe o TPBR nas redes sociais

Tag: ‘O Retorno’

Finalmente, na reta final da temporada, a linha tênue que separa o sonho e a realidade em Twin Peaks é cruzada. Até mesmo para aqueles que se desagradaram durante o percurso, a espera se mostra recompensadora, e as 15 horas passadas resultam em uma avalanche de puro Lynchianismo. Cada enredo parece se beneficiar disso a sua maneira e, mesmo que os eventos dos últimos episódios se destaquem, eles não ofuscam o desenvolvimento anterior.

Mas o fim justifica os meios? De fato, por mais abrupta que a volta de Dale seja, por exemplo, nem por isso o entrecho de personagens e eventos envolvendo Dougie/Cooper é descartado – na verdade, causam até um peso no personagem, que esteve consciente de tudo ao seu redor, mesmo enquanto vegetal. E o estopim de acontecimentos do episódio, em especial os relacionados a Diane e Audrey, também lançam uma luz sobre os acontecimentos anteriores. Não há nada no passado que não mereça uma revisão, até os três minutos de pessoas varrendo o que cai muito bem na semana de espera para os dois últimos episódios.

“QUE TIPO DE VIZINHANÇA É ESSA?”

Lynch constrói o seu mundo em coisas mundanas, é daí que nasce o humor e as características do seu surrealismo. Pacotes de salgadinhos fazem um grande papel num tiroteio, pois, se não estivessem faltando, teria Chantal sido tão impulsiva a ponto de dar o primeiro tiro, estragando todo o plano da tocaia e condenando a própria vida e a do Hutch? O primeiro incentivo para a briga – a ocupação da van na frente da garagem – , como apontado por Rodney Mitchum, revela um dos defeitos do cotidiano americano, exagerado ao máximo.

Segundo a própria definição da palavra derivada do diretor, classificada por David Foster Wallace, a sequência da morte do casal foi um dos momentos mais marcantes da temporada: “Um assassinato doméstico não é ‘Lynchian’. Mas, se o homem – e se a polícia vem ver a cena do crime e encontra o homem em pé ao lado do corpo e a mulher – vejamos, o cabelo ‘bouffant’ dos anos 50 dela está sem perturbações e o homem e os policiais têm uma discussão sobre o fato de que ele matou a mulher porque ela se recusou a comprar, por exemplo, a manteiga de amendoim de uma marca ao invés de outra, e como isso é muito, muito importante […] isso seria ‘Lynchiano’ – essa estranha confluência de coisas extremamente obscuras, surreais, violentas e […] banais, produtos americanos, terreno que ele vem trabalhando por um tempo”.

“ADEUS, MEU FILHO”

A eletricidade também vem sendo um dos elementos explorados no Revival, e com ela temos um outro exemplo de morte inexplicavelmente absurda. Richard Horne finalmente tem o que lhe é merecido, quando ele acaba sendo a vítima de uma armadilha, preparada por Phillip Jeffries para o Mr.C. O acontecimento não só tem um potencial efeito de choque para com o público – sim, ele é o filho do Bad Cooper com a Audrey e considerando a revelação posterior de Diane, provavelmente também foi de um abuso que se deu a sua criação -, mas também levanta um questionamento essencial quanto a validade de alguns arcos na série: Por que ele foi tão facilmente descartado e como isso influenciará o final? No primeiro episódio do Retorno, o nome do personagem é citado pelo Fireman e, talvez, a despedida feito pelo seu pai não signifique necessariamente a sua morte definitiva.

“EU SOU O FBI”

A volta do Agente Dale Cooper é, assim como a morte de Richard, abrupta e extremamente esperada. De todas as formas mirabolantes cogitadas, a mais simples e menos antecipada foi a que ocorreu – o choque, no episódio passado, foi o suficiente para fazê-lo. Mas, desta vez, o recurso de frustração narrativa, excessivamente utilizado nessa temporada, é deixado de lado para ser entregue um dos momentos mais emocionantes até agora. O tema da série é tocado, assim como na primeira aparição de Laura Palmer em Fire Walk With Me – após todo o segmento envolvendo as investigações de Teresa Banks -, para nos lembrar que depois de tanto tempo, finalmente estamos em casa.

Depois de tanto tempo, é complicado separar o que é “original” do que já nos é familiar no retorno – uma divisão que, por si só, é absurdamente desnecessária, mas é compreensível a necessidade de comparação com o material dos anos 90. Ao passo que nos afeiçoamos com personagens como Janey-E, Sonny Jim, Bushnell ou até mesmo os três irmãos Fusco, a despedida deles fica mais difícil. Ao acordar, Cooper reconhece tudo que estava acontecendo ao seu redor e, ao ser abordado por Mike, faz-lhe um pedido: a produção de mais uma réplica manufaturada de si próprio, através de uma mecha de cabelo e uma das sementes (o globo dourado, saído de Dougie), com o objetivo de presentear a família Jones com o seu substituto. Ainda lhe é dado O Anel, ferramenta deduzida como essencial para o aprisionamento do Doppelganger, no confronto que está por vir.

SEM BATIDA NEM CAMPAINHA

Ao nos aproximarmos desse enfrentamento, é impossível não notar as maquinações produzidas pelo Mr. C: da produção de Dougie – como um meio de se salvar de ser substituído, na vinda do Good Cooper -, até a criação da tulpa de Diane – uma provável isca para o FBI, com o objetivo de extorquir informações e até matá-los, se fosse necessário -, ele posicionou as peças no tabuleiro, para garantir a sua permanência, ocasionando quase todos os acontecimentos dessa temporada. O estranho da cópia de Diane é que, aparentemente e até certo ponto, ela era consciente do seu estado e tinha memórias da sua versão original – algo que não sabemos se ocorreu com Dougie. Através de uma espécie de mecanismo (“: – ) ALL”), o Mr. C invoca um comportamento hostil em Diane, provocando nela uma crise e fazendo-a revelar o que aconteceu na última noite em que se encontraram. Gordon Cole pressente o perigo presente nela, antes mesmo dela entrar no quarto. Quando ela finalmente tem uma recaída e está prestes a atirar nele, Albert e Tammy a impedem, matando-a.

Leia mais sobre tulpas, Diane é Audrey no post de Impressões e Teorias do episódio.

AUDREY’S DANCE

A parte 16 continua a entregar o prometido, confirmando a validade de algumas suposições e teorias: Audrey realmente estava presa em um sonho. Depois de enfim chegar ao Roadhouse, a menção de sua música quebra barreiras da nossa realidade com a dela, funciona como um levantar de cortinas. Ela segue a música e dança, em outro momento memorável do Retorno – cuja umas das graças, foi simplesmente ir contra a corrente de revisitações dirigidas pela nostalgia. Em meio de todos os elementos nunca vistos antes e que nos foram apresentados, a nova temporada soube muito bem como se utilizar da auto-referência e somos gratos por isso.

Glória, glória! Aleluia!

As consequências do despertar de Audrey, aparentemente, não se limitam ao núcleo dela e de Billy e podem se estender ao ponto de nos fazer questionar o que realmente foi “real”, durante todo o show. Mas, é ainda necessário informar que a produção, no seu modo, tem as suas próprias regras. O que é instável aqui, seja na linearidade ou cronicidade, como é o caso da Audrey, se auto-denuncia previamente de diferentes formas. É preciso se manter atento aos detalhes e aos sons antes de supor e derrubar o que foi rigidamente estabelecido. Talvez seja melhor nem pensar, enquanto nos dirigimos ao terreno desconhecido e imprevisto das duas horas finais da série.