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Finalmente, na reta final da temporada, a linha tênue que separa o sonho e a realidade em Twin Peaks é cruzada. Até mesmo para aqueles que se desagradaram durante o percurso, a espera se mostra recompensadora, e as 15 horas passadas resultam em uma avalanche de puro Lynchianismo. Cada enredo parece se beneficiar disso a sua maneira e, mesmo que os eventos dos últimos episódios se destaquem, eles não ofuscam o desenvolvimento anterior.

Mas o fim justifica os meios? De fato, por mais abrupta que a volta de Dale seja, por exemplo, nem por isso o entrecho de personagens e eventos envolvendo Dougie/Cooper é descartado – na verdade, causam até um peso no personagem, que esteve consciente de tudo ao seu redor, mesmo enquanto vegetal. E o estopim de acontecimentos do episódio, em especial os relacionados a Diane e Audrey, também lançam uma luz sobre os acontecimentos anteriores. Não há nada no passado que não mereça uma revisão, até os três minutos de pessoas varrendo o que cai muito bem na semana de espera para os dois últimos episódios.

“QUE TIPO DE VIZINHANÇA É ESSA?”

Lynch constrói o seu mundo em coisas mundanas, é daí que nasce o humor e as características do seu surrealismo. Pacotes de salgadinhos fazem um grande papel num tiroteio, pois, se não estivessem faltando, teria Chantal sido tão impulsiva a ponto de dar o primeiro tiro, estragando todo o plano da tocaia e condenando a própria vida e a do Hutch? O primeiro incentivo para a briga – a ocupação da van na frente da garagem – , como apontado por Rodney Mitchum, revela um dos defeitos do cotidiano americano, exagerado ao máximo.

Segundo a própria definição da palavra derivada do diretor, classificada por David Foster Wallace, a sequência da morte do casal foi um dos momentos mais marcantes da temporada: “Um assassinato doméstico não é ‘Lynchian’. Mas, se o homem – e se a polícia vem ver a cena do crime e encontra o homem em pé ao lado do corpo e a mulher – vejamos, o cabelo ‘bouffant’ dos anos 50 dela está sem perturbações e o homem e os policiais têm uma discussão sobre o fato de que ele matou a mulher porque ela se recusou a comprar, por exemplo, a manteiga de amendoim de uma marca ao invés de outra, e como isso é muito, muito importante […] isso seria ‘Lynchiano’ – essa estranha confluência de coisas extremamente obscuras, surreais, violentas e […] banais, produtos americanos, terreno que ele vem trabalhando por um tempo”.

“ADEUS, MEU FILHO”

A eletricidade também vem sendo um dos elementos explorados no Revival, e com ela temos um outro exemplo de morte inexplicavelmente absurda. Richard Horne finalmente tem o que lhe é merecido, quando ele acaba sendo a vítima de uma armadilha, preparada por Phillip Jeffries para o Mr.C. O acontecimento não só tem um potencial efeito de choque para com o público – sim, ele é o filho do Bad Cooper com a Audrey e considerando a revelação posterior de Diane, provavelmente também foi de um abuso que se deu a sua criação -, mas também levanta um questionamento essencial quanto a validade de alguns arcos na série: Por que ele foi tão facilmente descartado e como isso influenciará o final? No primeiro episódio do Retorno, o nome do personagem é citado pelo Fireman e, talvez, a despedida feito pelo seu pai não signifique necessariamente a sua morte definitiva.

“EU SOU O FBI”

A volta do Agente Dale Cooper é, assim como a morte de Richard, abrupta e extremamente esperada. De todas as formas mirabolantes cogitadas, a mais simples e menos antecipada foi a que ocorreu – o choque, no episódio passado, foi o suficiente para fazê-lo. Mas, desta vez, o recurso de frustração narrativa, excessivamente utilizado nessa temporada, é deixado de lado para ser entregue um dos momentos mais emocionantes até agora. O tema da série é tocado, assim como na primeira aparição de Laura Palmer em Fire Walk With Me – após todo o segmento envolvendo as investigações de Teresa Banks -, para nos lembrar que depois de tanto tempo, finalmente estamos em casa.

Depois de tanto tempo, é complicado separar o que é “original” do que já nos é familiar no retorno – uma divisão que, por si só, é absurdamente desnecessária, mas é compreensível a necessidade de comparação com o material dos anos 90. Ao passo que nos afeiçoamos com personagens como Janey-E, Sonny Jim, Bushnell ou até mesmo os três irmãos Fusco, a despedida deles fica mais difícil. Ao acordar, Cooper reconhece tudo que estava acontecendo ao seu redor e, ao ser abordado por Mike, faz-lhe um pedido: a produção de mais uma réplica manufaturada de si próprio, através de uma mecha de cabelo e uma das sementes (o globo dourado, saído de Dougie), com o objetivo de presentear a família Jones com o seu substituto. Ainda lhe é dado O Anel, ferramenta deduzida como essencial para o aprisionamento do Doppelganger, no confronto que está por vir.

SEM BATIDA NEM CAMPAINHA

Ao nos aproximarmos desse enfrentamento, é impossível não notar as maquinações produzidas pelo Mr. C: da produção de Dougie – como um meio de se salvar de ser substituído, na vinda do Good Cooper -, até a criação da tulpa de Diane – uma provável isca para o FBI, com o objetivo de extorquir informações e até matá-los, se fosse necessário -, ele posicionou as peças no tabuleiro, para garantir a sua permanência, ocasionando quase todos os acontecimentos dessa temporada. O estranho da cópia de Diane é que, aparentemente e até certo ponto, ela era consciente do seu estado e tinha memórias da sua versão original – algo que não sabemos se ocorreu com Dougie. Através de uma espécie de mecanismo (“: – ) ALL”), o Mr. C invoca um comportamento hostil em Diane, provocando nela uma crise e fazendo-a revelar o que aconteceu na última noite em que se encontraram. Gordon Cole pressente o perigo presente nela, antes mesmo dela entrar no quarto. Quando ela finalmente tem uma recaída e está prestes a atirar nele, Albert e Tammy a impedem, matando-a.

Leia mais sobre tulpas, Diane é Audrey no post de Impressões e Teorias do episódio.

AUDREY’S DANCE

A parte 16 continua a entregar o prometido, confirmando a validade de algumas suposições e teorias: Audrey realmente estava presa em um sonho. Depois de enfim chegar ao Roadhouse, a menção de sua música quebra barreiras da nossa realidade com a dela, funciona como um levantar de cortinas. Ela segue a música e dança, em outro momento memorável do Retorno – cuja umas das graças, foi simplesmente ir contra a corrente de revisitações dirigidas pela nostalgia. Em meio de todos os elementos nunca vistos antes e que nos foram apresentados, a nova temporada soube muito bem como se utilizar da auto-referência e somos gratos por isso.

Glória, glória! Aleluia!

As consequências do despertar de Audrey, aparentemente, não se limitam ao núcleo dela e de Billy e podem se estender ao ponto de nos fazer questionar o que realmente foi “real”, durante todo o show. Mas, é ainda necessário informar que a produção, no seu modo, tem as suas próprias regras. O que é instável aqui, seja na linearidade ou cronicidade, como é o caso da Audrey, se auto-denuncia previamente de diferentes formas. É preciso se manter atento aos detalhes e aos sons antes de supor e derrubar o que foi rigidamente estabelecido. Talvez seja melhor nem pensar, enquanto nos dirigimos ao terreno desconhecido e imprevisto das duas horas finais da série. 

“Eu carrego um tronco, sim. Isso é engraçado para você? Não é para mim. Por trás de tudo há uma razão. Razões podem até explicar o absurdo” – Margaret Lanterman, S01E01

Morte e senescência, os dois principais temas desta encarnação de Twin Peaks, tomam forma na Parte 15 no modo mais doloroso. É com o livramento do peso, da desesperança e da enfim correspondência de um amor de décadas, que se inicia o episódio. Mas, por mais que nos deslumbramos o céu azul de Big Ed e Norma, no fim, somos obrigados a encarar o destino inevitável: o falecimento da Log Lady, a aparição de Phillip Jeffries, transcendem a tela e transmitem uma gravidade real. Um último desafio, que Catherine E. Coulson, em especial, aceita e cumpre com excelência. Não seria tão estranho, se a cena em que o pessoal da delegacia recebe a notícia da passagem da personagem, realmente refletisse a reação da morte da própria atriz. “Hawk, o meu tronco está ficando dourado, o vento está em prantos, eu estou morrendo”.

“ED, VOCÊ ESTÁ LIVRE!”

A figura de Nadine, com a pá dourada nos ombros, com o monte, que dá nome a cidade ao fundo e indo libertar o pobre Big Ed da sua prisão matrimonial, com certeza, é uma das cenas mais icônicas da temporada. A razão para esse ímpeto de extrema sanidade se dá ao Dr. Jacob e o seu programa conspiratório, que exerce uma influência inimaginavelmente boa na personagem. Mas, pela ociosidade característica dela, só nos resta esperar que essa escolha tenha sido realmente decisiva.

O encontro posterior do casal, já mencionado, traz consigo a ansiedade da possibilidade da rejeição, levada pelos anos de espera de um pelo o outro. Um conflito, porém, não é considerado nem premeditado pelos dois. As adversidades na vida, tanto de Ed quanto de Norma, resultam numa aceitação, mesmo que sofrida, na pior das situações imaginadas. As nuances na atuação de Everett McGill – que estava longe das câmeras por mais de uma década – transmitem o peso da idade, a gravidade de uma última grande decepção em vida e, enfim, a satisfação da aguardada união com o seu amor. É uma construção excelente, com um pico emocional delirante, no toque de Norma no ombro do outro, após ela tomar uma decisão final quanto os seus negócios. É um tanto estranho e maravilhoso, deslumbrar essas nuvens no céu azul, em plena Twin Peaks.

“EU VOU ESTAR COM OS RINOCERONTES?”

“Existe uma tristeza nesse mundo, para nós que somos ignorantes de tantas coisas. Sim – nós somos ignorantes de muitas coisas belas, coisas como a verdade. Então a tristeza em nossa ignorância é bastante real. As lágrimas são reais. O que é essa coisa chamada lágrima? Existem até pequenos ductos – ductos lacrimosos – para produzir essas lágrimas, quando a tristeza acontecer.

Então, no dia quando a tristeza vem, nós perguntamos: ‘Irá essa tristeza que me faz chorar, essa tristeza que me faz chorar o coração para fora, acabar um dia?’ A resposta, é claro, é sim. Um dia a tristeza irá acabar.” – Margaret Lanterman, S01E03

Contudo, não foi exatamente ensolarado o dia para Steven Burnett. Becky estava certa, quando ainda na Parte 13, pressentiu o marido estar em apuros, só não era esperado por ela que ele cometesse suicídio. Numa cena, em meio a floresta de Douglas Firs, encontramos ele e Gersten Hayward, tentando convencê-lo de não fazer o pior, durante uma crise. Numa sequência de movimentos compulsivos e frases aleatórias, os dois são flagrados por Cyril Pons (Mark Frost, reprisando o seu papel como jornalista da série original), que após o disparo de uma arma, corre para o Fat Trout Trailer Park, avisando Carl sobre o ocorrido.

Mark Frost, co-criador e roteirista da série, como Cyril Pons

Relacionamentos também não parecem irem ao certo com James Hurley. No Roadhouse, após simplesmente cumprimentar Renée (a moça que se emocionou com a apresentação dele na parte 13), ele acaba se envolvendo numa briga com Chuck, com quem ela é comprometida. Freddie Sykes, acompanhante de James, resolveu tudo com um simples soco. Porém, o resultado não poderia ser pior: os dois, pelo estrago feito pela luva verde, tanto em Chuck quanto no seu amigo, acabaram presos – em companhia de Chad, um homem bêbado e Naido.

“QUEM É JUDY?!”

Acompanhamos com o Mr. C até onde os postes e linhas elétricas levam. A loja de conveniência se revela de uma forma bastante familiar: o visual, da sua primeira aparição nos anos 50, continua o mesmo e, no interior, o papel de parede do lugar de antigas reuniões aponta para os sonhos de uma inquieta Laura Palmer, nos últimos dias de sua vida. Dentre os woodsman, um misterioso espírito – em forma de uma senhora, semelhante a Mrs. Tremond – e até mesmo o próprio Phillip Jeffries, o encontro com Richard Horne foi o mais inesperado, com uma descoberta significativa: mesmo a Audrey sendo realmente a mãe do garoto, felizmente, pela reação do Evil Coop ao saber disso, podemos dizer que ele pode não ser o pai. Amém.

David Bowie é, sem dúvidas, insubstituível e a sua mínima aparição no revival, mesmo que somente em flashbacks de Fire Walk With Me, já é suficiente para aquecer o coração. Não era ele, infelizmente, quem dublava a “evolução” de Phillip Jeffries – Nathan Frizzell é quem faz o excelente trabalho de emular o personagem -, mas o momento não deixa de ser especial. De uma chaleira à uma árvore/neurônio, qual é a melhor forma de não realizar um recast?

Leia mais sobre Phillip e Judy no post mais recente sobre teorias.

SHARP DRESSED MAN

“Onde antes havia um, agora estão lá dois. Ou sempre houveram dois?” – Margaret Lanterman, S02E22

Ligue para Gordon Cole”. Em Las Vegas, finalmente temos o gatilho para um dos momentos mais aguardados do Revival. Uma breve cena de Sunset Boulevard (1950), foi o suficiente para despertar algo profundo no interior do Agente Cooper. Ele engatinha até uma tomada, onde enfia o cabo de um garfo, causando um curto circuito.

No final da Parte 15 ainda, mais uma personagem desconhecida se envolve numa situação estranha, quando, assim como Dougie/Cooper, começa a engatinhar, em meio ao público da apresentação do The Veils, até de repente começar a gritar aleatoriamente. Apesar de não estarem exatamente em sincronia, as duas cenas compartilham coisas em comum. Anteriormente, no episódio, há uma possível indicação de que esse é, realmente, o momento chave para o retorno de Cooper. Pessoas vêm especulando em fóruns que, talvez, a música tocada no Roadhouse como “a mais pedida”, seja uma forma de predizer o acontecimento, já que “Sharp Dressed Man” é uma descrição um tanto apropriada para o Dale.

Audrey Horne, por outro lado, aparenta estar longe de se libertar do seu delírio. As cenas entre ela e Charlie, desde a primeira aparição deles, seguem a cronologia mais explicitamente distante dos outros núcleos da série. Enquanto aparentemente, nos outros lugares, se passam dias, os dois continuam presos numa discussão eterna sobre ir ou não ao Roadhouse. Desta vez, a personagem passa por uma auto revelação repentina, não conseguindo associar o seu marido, na sua frente, com a ideia prévia que ela tinha dele.

 

“Isso é o agora, e ‘agora’ nunca mais será de novo. Nós viemos do elemental e retornamos para ele. Há uma mudança, mas nada está perdido. Há muito o que não podemos ver – o ar, por exemplo, em boa parte do tempo – mas, sabendo que a nossa próxima respiração seguirá a nossa última sem falhar, é um ato de fé. Não é? Tempos obscuros sempre irão vir, como a noite segue o dia. Confie, e não trema na face do desconhecido. Isso não deve se manter desconhecido por muito tempo” – Margaret Lanterman, The Secret History Of Twin Peaks

 

“Nós somos como o sonhador que sonha e então vive dentro do sonho. Mas quem é o sonhador?”

Era sonhar demais pensar que David Bowie poderia reprisar seu papel como o agente do FBI Phillip Jeffries antes de sua morte – e que todos os envolvidos conseguiriam manter este sonho vivo. Em vez disso, Twin Peaks abordou sua ausência da melhor forma possível, usando cenas de Fire Walk With Me no plano sequência do sonho de Gordon. Foi uma presença agridoce, fazendo com que sentíssemos ainda mais a falta de Bowie, mas claro, a participação do personagem não nos deu nenhuma resposta. Esta foi a semana que a série permitiu que a realidade de suas narrativas fossem mais longe do que nunca.

Histórias, sonhos, contos, memórias e lembranças… O que Lynch e Frost questionam em meio essa coleção de narradores não confiáveis é o que realmente faz a diferença? Lynch brinca conosco ao colocar Gordon para resolver casos através de seus sonhos com a atriz Monica Bellucci (que interpreta ela mesma). Está ficando cada vez menos claro na palavra de quem podemos confiar – mas enquanto podemos acusar o episódio 14 pela falta de clareza, o problema não é o mesmo quando se trata de revelações.

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A descoberta mais significante é que Diane e Jayne-E são meio-irmãs sem muita afinidade. A veterana do FBI de Laura Dern foi tão fortemente construída em cima de uma postura de cigarros e boca suja que temos a impressão de que ela poderia acabar com qualquer um de seus virtuosos oponentes e agora, ela serve como contraponto para outra forte presença feminina na série, a impertinente e manipuladora esposa interpretada por Naomi Watts.

O ponto é que muitas coisas aconteceram essa semana. Pessoas estão começando a conectar as pontas para revelar a realidade de dois Coopers, segredos sobre Blue Rose estão surgindo na superfície, o Gigante também é chamado de Bombeiro, o retorno do vórtex e Sarah Palmer arrancando o rosto de um homem.

Mas ao mesmo tempo, aqueles que estão nas beiradas da narrativa também dominam. Andy dificilmente poderia ser visto como um vitorioso, mas mesmo assim ele foi escolhido pelo Bombeiro para uma viagem ao seu reino e foi presenteado com uma recapitulação de toda a mitologia de Twin Peaks, isso antes de ressurgir na floresta de alguma forma mais sábio e instintivamente sabendo como proteger a garota sem olhos.

E ainda, se Andy não era o personagem que diríamos ser fundamental, passar um tempo com o segurança britânico Freddie enquanto o mesmo contava toda a história da luva verde para James Hurley, se mostrou ainda mais improvável.  Sejam quais forem seus motivos, percebemos que o Bombeiro nutre certo “apreço” pelo garoto.  Em um mundo tão corrompido, essa mão controladora parece preocupada com um inocente. Nós somos todos histórias no final e algumas pessoas são maiores do que parecem ser.

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“Qual o nome de sua mãe?”

Nós fechamos novamente no Roadhouse, com mais pessoas que não conhecemos falando sobre pessoas que não conhecemos. Essa última interação entre a filha de Tina e a esposa de Lynch, Emily Stofle, é notável porque é a única alusão que temos referente ao que seja o que for o que está acontecendo com Audrey e o que for que tenha acontecido com Billy. Trazer um personagem tão icônico e depois apenas deixá-la de lado seria mais um motivo para criticar uma série com tantos personagens para administrar, mas agora nós desistimos de pensar que eles nunca irão amarrar tudo isso ao decorrer dos episódios. Talvez esse seja o ponto. O nó final de Twin Peaks deveria ter sido quando o assassinato de Laura Palmer foi solucionado e assim mesmo essas pessoas continuam lá, seguindo de maneiras diferentes controladas por esse terrível evento, pois no fim das contas a vida real também é assim. Nesse sentido, Twin Peaks é possivelmente a série mais fiel à realidade a ser exibida na televisão.

| Créditos |

O SÉTIMO CÉU DE SONNY JIM

Próximo a reta final da temporada e quando finalmente abandonamos a ansiedade de uma reviravolta no horizonte – aceitando que, talvez, o nosso Agente Cooper não volte nem tão cedo – que conseguimos ter uma visão ampla do quadro bizarro de Dougie Jones. O estranho universo do Dale Semi-Vegetal abre o episódio com uma trilha inesperada – tão quanto a da apresentação do Ike, the Spike -, a euforia inacreditável dos irmãos Mitchum, e mais personagens alheios às poucas palavras de Dougie. 

source (1)“Isn’t it too dreamy?”

Em meio a um ambiente tão próprio do Retorno, toda a situação de Anthony Sinclair (Tom Sizemore), acaba por se relacionar muito a um personagem, de curta aparição da segunda temporada: Ernie Niles. Sejam covardes ou com um enorme senso de autopreservação, os dois compartilham um modelo cômico clássico, surpreendentemente reutilizado na série. Assim como o provavelmente ex-padrasto de Norma serviu aos agentes do FBI na emboscada – e consequente morte – de Jean Renault (Michael Parks, falecido em Maio deste ano), Anthony é a chave para o flagrante de Duncan Todd e sua rede de policiais corruptos, consequentemente revelando o envolvimento do empresário com o Mr. C.

O INFERNO DE RAY

Mencionando o diabo, depois de exatamente três episódios ausente, ele reaparece, para a infelicidade de Ray, no centro de uma organização criminosa obscura. Todo o sistema dali dentro, aliado a perspectiva da apresentação de um novo ambiente, causam um súbito estranhamento. Descobrimos que, na verdade, o Monroe é subordinado a Ranzo (Derek Mears), o chefe da Fazenda – quase Clube da Luta da queda de braço -, e que, através de um desafio, sua vida seria completamente entregue ao Mr. C.

Reparando bem, não é que o Richard tem uma leve semelhança com o Ray? Estou teorizando demais? Ou são só as bochechas mesmo?

Após uma sequência quase hipnótica da disputa entre os dois, o Bad Cooper provou mais uma vez suas habilidades sobrenaturais, ganhado – e destruindo a cabeça do infeliz – ao final. Antes de morrer, Ray é interrogado, revelando informações importantes para o continuar da série: aparentemente, a tentativa de homicídio contra o Mr. C, na oitava parte, não se realizou pela falta de um item crucial.

“Com este anel, caso-te” – O Braço, Twin Peaks: Fire Walk With Me

Twin Peaks: The Missing Peaces

O Anel com a insígnia dos Lodges – elemento cuja primeira aparição se realizou em Fire Walk With Me –, serve aqui, aparentemente, como uma forma de transporte para o Black Lodge, no pós-morte. Uma das várias interpretações para o seu uso, é que ele simbolizava uma submissão/entrega da alma do indivíduo às criaturas do Lodge, firmando um “compromisso”. A última vez que foi visto – antes de ser pego, de alguma forma, por Phillip e em seguida, por Ray -, ele estava sendo usado pela réplica “manufaturada” de Dale Cooper, o Dougie Jones original, antes dele desaparecer e o objeto ser, novamente, guardado no altar. Antes do Retorno, vemos ele ser assaltado, por uma enfermeira, dos pertences de Annie Blackburn, quando esta estava em desacordada no hospital de Twin Peaks, numa das cenas deletadas do filme. Anteriormente, tanto Laura Palmer quando Teresa Banks utilizaram o anel, durante ou em períodos antes da sua morte, respectivamente. Há descrições, na História Secreta de Twin Peaks, do objeto e o fascínio causado por ele, que marcam desde o século XIX.

“QUE HISTÓRIA É ESSA, CHARLIE?!”

Ao passo em que nos aproximamos do fim do revival, cada vez mais pessoas se esforçam para teorizar e encontrar indícios de uma reviravolta ou de uma subversão da realidade, como de praxe numa obra do Lynch. Para esses, o episódio desta semana pode servir como um prato cheio, com tanto o discurso de Audrey, quanto mais um indício de uma provável falta de linearidade no tempo surgiram. Bobby, ao se juntar à mesa, com Norma e Ed, menciona ter encontrado algumas coisas envolvendo do seu pai. A última vez em que vimos uma descoberta do tipo, foi há 4 partes atrás e, desde então, tivemos a indicação de que, no mínimo, se passaram dois dias. Assim, ou a visita de Briggs, Hawk e Truman ao Palácio do Jack Rabbit nos foi omitida, ou então…

Eu sinto como se estivesse em outro lugar… e fosse outra pessoaNão tenho certeza de quem sou, mas eu não sou eu”. Esse é, realmente, o bê-a-bá do existencialismo e, à primeira vista, podemos supor que seja simplesmente uma crise causada pela idade, pelo o desaparecimento do Billy, ou então, algum reflexo de um trauma, causado pelo provável longo período em coma. Mas, pelo histórico do diretor – em Lost Highway, o protagonista simplesmente se transforma em outra pessoa; a trama de Mulholland Dr. e  de outras produções com situações semelhantes -, o pouco que sabemos sobre Audrey nesses 25 anos em que esteve ausente, pode tomar rumos inesperados.

Pelo menos, aparentemente, o Billy ainda não morreu – seja lá quem for ele.

CLIENTES FAMINTOS

O encontro entre Norma e Walter Lawford (Grant Goodeve), seu infelizmente novo interesse amoroso, proveu um dos paralelos mais explícitos da temporada. É obvia a falsa pretensão do empresário com o seu interesse na “essência” do Double R, e a comparação com a própria trajetória dos criadores da série na indústria, seja televisa ou cinematográfica, é tão evidente quanto. Tanto Mark Frost, quanto Lynch tiveram a qualidade de suas obras – no caso de Norma, tortas – notoriamente comprometidas pela interferência de executivos na produção – a  exemplo de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2006), co-escrito por Frost e Dune (1984), dirigido por Lynch, ambas produções relativamente infames e de grandes produtoras. Só nos resta esperar que ela mantenha o bom senso e não torne o medo dos outros o dela. 

No meio disso tudo, o melhor encontro entre criador e fã que você respeita.

Por fim, o episódio termina com um imenso contraste, entre o Retorno e a série original – mais especificamente, o seu lado mais novelesco. Cai o peso, aqui, da realidade na senilidade, da desilusão do romantismo na juventude e a sua não sustentação. Seja com Audrey e Cooper – ou Jack Wheeler (Billy Zane, coincidentemente o primeiro nome do atual amante dela), com quem ela se envolveu no fim da segunda temporada -, James e Donna a sumida e, principalmente, Norma e Big Ed, nenhum durou durante esses vinte e cinco anos. Nem mesmo o núcleo mais jovem consegue passar pela falta de filtro: Ao contrário do modo como era retratado a relação de seus pais, assistimos Becky sofrer pela ausência de Steven, sem o sútil tom que fazia o engajamento de Shelly e Bobby valer a pena – ainda hoje, como efeito disso, não conseguimos não torcer pelos dois.

sourcePara sempre, tocando repetidamente na sua cabeça. 

 

Uma sombra se expande sobre Twin Peaks. O horror e o pressentimento acerca de um futuro hediondo e obscuro, quase sempre recorrentes na série e na obras de Lynch, são os protagonistas da décima-segunda parte. A sensação de que algo está prestes a eclodir, presente desde o oitavo episódio – e que ganhou força em meados do último -, toma forma através dos diversos interlúdios – compostos por sequências, semelhante às que ocorrem na segunda temporada, da floresta, enevoada, à noite -, simbolismos e, nesta parte principalmente, o desconhecido.

Somos desafiados, no meio da temporada, a empatizar com ambientes e contextos que, mesmo com rostos familiares, desconhecemos quase que totalmente. E isso, por si só, é capaz de nos deixar tão apreensivos quanto Audrey, na sua primeira aparição. Ou, no pior dos casos, tão indiferentes quanto o Mr. C, em qualquer situação. Afinal, independente da reação, é impossível negar que esse exercício de constante conceptualização, do elemento mais surreal ou da situação mais absurdamente mundana, seja uma das maiores graças de Twin Peaks.

LET’S ROCK

Enfim, descobrimos a natureza do caso Blue Rose da forma mais inesperada possível: clara e simples. Não que o foi dito tenha sido totalmente inédito ou indedutível, mas é ótimo ter a origem do caso finalmente explanada. Como explicado pelo Albert, a operação surgiu da junção do FBI com um seleto grupo das forças militares, com o objetivo de investigar os furos e obstruções no Projeto Livro Azul, tendo como base uma abordagem não tradicional, relatada num livro que dá nome ao caso. Ainda, descobrimos também o estranho método utilizado na escolha de agentes.

Ouça os sons” – ????, S03E01

Apesar de ainda não sabermos a que a frase do Gigante (ou ????), na premiere, realmente se refere, ainda assim podemos dar à ela um certo nível de relevância no desenrolar deste episódio. Primeiro, acompanhamos, através da trilha – e da atuação da Chrysta Bell, que cresce a cada episódio -, o sentimento de realização de Tammy ao finalmente ser contratada na equipe especial de Gordon Cole. Logo em seguida, Diane, que vem sendo posta em vista grossa pela equipe – sem desconfiar de nada disso -, entra no aposento atravessando uma simbólica cortina vermelha aveludada e, após receber a proposta de Albert, profere a frase que dá nome ao episódio. A relação com o The Arm poderia ser mais uma coincidência, se não fosse o característico som distorcido de interferência – que não aparece desde o FWWM.

“ALGUMA COISA ACONTECEU COMIGO!”

Em um curiosa cena, num mercado ~ou loja de conveniência~, o mesmo efeito sonoro se repete. Sarah Palmer (Grace Zabriskie, um dos destaques do episódio), retorna depois da sua pequena aparição na primeira parte, assustando a todos com um aviso sinistro. As indagações que ela faz à atendente – que por sinal, é um tanto semelhante a própria Laura Palmer – lembram as frases soltas de Phillip Jeffries – já mencionado no episódio, na sua breve aparição em Seattle – e realmente não se referem à pacotes de carne defumada ao todo. “Você estava aqui quando eles vieram primeiro?”, talvez se refira a primeira manifestação dos seres de outra dimensão aos habitantes de Twin Peaks. E “Homens estão vindo! Homens estão vindo!” pode servir de aviso sobre a volta deles e, bem, eles tem um gosto por lojas. Afinal, o ventilador-de-teto da casa dos Palmer voltou a girar e nem isso, nem os barulhos vindos de dentro dela servem de bom presságio.

É uma maldita história ruim, não é, Hawk?

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Dougie/Cooper continua sendo… Dougie. No episódio dessa semana, sua aparição fica reservada à uma curta cena, um tanto desanimadora para quem espera pela sua volta. A desventura de Jerry Horne continua, com ele finalmente saindo da parte mais densa da mata, mesmo que ainda perdido.

Na sua loja de cortinas silenciosas, Nadine continua a assistir Lawrence Jacoby, com o seu show do Dr. Amp a todo vapor e pás. A abertura de sempre, seguida da já conhecida propaganda satírica, introduzem mais um discurso, mais uma vez voltado para as grandes corporações e… políticos. De alguma forma, pouco à pouco, eu me sinto cada vez mais convencido a comprar a minha própria pá dourada.

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É sempre ótimo ter Carl (Harry Dean Staton) na tela, seja dando caronas, tocando violão ou acompanhando o que ocorre no seu parque de trailers. A sua conversa com Kriscol foi um, dos diversos momentos mais humanos do episódio.

“VOCÊ NÃO VAI ME CONTAR O QUE ELA FALOU?!”

A parte 12 conseguiu, surpreendentemente, ser tão provocativa quantas as outras. É angustiante a forma quase perversa em que as cenas são desenvolvidas através de um acúmulo de expectativas para enfim terminar da forma mais anticlimática possível. Primeiro, nós, assim com Albert, acabamos nos intrometendo, sem querer, em um momento íntimo, entre Gordon e uma garota francesa. Nós esperamos, assim como Albert, a moça calçar os saltos, retocar o batom, arrumar o vestido e degustar mais um pouco de sua taça de vinho para, finalmente, ela deixar o quarto. Terminamos somente com uma declaração da apreensão de Cole para com o seu parceiro.

A volta da Audrey leva isto para outro nível. Durante toda a temporada, tivemos momentos que envolviam, direta ou indiretamente, à ela e ao que se passou durante esses 25 anos. Neste episódio em específico, o diálogo entre Frank Truman e Benjamin Horne, além de discutir sobre Richard e a estranha casualidade do aparecimento da chave do quarto de Cooper, tem insinuação mais explícita do parentesco do garoto. “Ele não teve um pai”, diz Ben, quase confirmando o horror que se passa na cabeça de todos nós. Ainda assim, a primeira aparição da Audrey não revela nada sobre o seu filho.

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Se Albert incorporou nós durante toda aquela cena com o Cole, ela faz o mesmo aqui. Ficamos sabendo do seu cônjuge com Charlie (o excelente Clark Middleton), resultado, provavelmente, de um contrato entre os dois. Apesar de terem, de certa forma, atingido uma relação “harmoniosa”, Audrey mantém abertamente para o seu marido, um caso com outro homem, também casado. O que aconteceu com Billy? Depois de um longo telefonema e uma discussão sobre casacos, a lua nova e papéis, ninguém, a não ser Tina (a esposa) e Charlie, sabe.