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“Nós somos como o sonhador que sonha e então vive dentro do sonho. Mas quem é o sonhador?”

Era sonhar demais pensar que David Bowie poderia reprisar seu papel como o agente do FBI Phillip Jeffries antes de sua morte – e que todos os envolvidos conseguiriam manter este sonho vivo. Em vez disso, Twin Peaks abordou sua ausência da melhor forma possível, usando cenas de Fire Walk With Me no plano sequência do sonho de Gordon. Foi uma presença agridoce, fazendo com que sentíssemos ainda mais a falta de Bowie, mas claro, a participação do personagem não nos deu nenhuma resposta. Esta foi a semana que a série permitiu que a realidade de suas narrativas fossem mais longe do que nunca.

Histórias, sonhos, contos, memórias e lembranças… O que Lynch e Frost questionam em meio essa coleção de narradores não confiáveis é o que realmente faz a diferença? Lynch brinca conosco ao colocar Gordon para resolver casos através de seus sonhos com a atriz Monica Bellucci (que interpreta ela mesma). Está ficando cada vez menos claro na palavra de quem podemos confiar – mas enquanto podemos acusar o episódio 14 pela falta de clareza, o problema não é o mesmo quando se trata de revelações.

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A descoberta mais significante é que Diane e Jayne-E são meio-irmãs sem muita afinidade. A veterana do FBI de Laura Dern foi tão fortemente construída em cima de uma postura de cigarros e boca suja que temos a impressão de que ela poderia acabar com qualquer um de seus virtuosos oponentes e agora, ela serve como contraponto para outra forte presença feminina na série, a impertinente e manipuladora esposa interpretada por Naomi Watts.

O ponto é que muitas coisas aconteceram essa semana. Pessoas estão começando a conectar as pontas para revelar a realidade de dois Coopers, segredos sobre Blue Rose estão surgindo na superfície, o Gigante também é chamado de Bombeiro, o retorno do vórtex e Sarah Palmer arrancando o rosto de um homem.

Mas ao mesmo tempo, aqueles que estão nas beiradas da narrativa também dominam. Andy dificilmente poderia ser visto como um vitorioso, mas mesmo assim ele foi escolhido pelo Bombeiro para uma viagem ao seu reino e foi presenteado com uma recapitulação de toda a mitologia de Twin Peaks, isso antes de ressurgir na floresta de alguma forma mais sábio e instintivamente sabendo como proteger a garota sem olhos.

E ainda, se Andy não era o personagem que diríamos ser fundamental, passar um tempo com o segurança britânico Freddie enquanto o mesmo contava toda a história da luva verde para James Hurley, se mostrou ainda mais improvável.  Sejam quais forem seus motivos, percebemos que o Bombeiro nutre certo “apreço” pelo garoto.  Em um mundo tão corrompido, essa mão controladora parece preocupada com um inocente. Nós somos todos histórias no final e algumas pessoas são maiores do que parecem ser.

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“Qual o nome de sua mãe?”

Nós fechamos novamente no Roadhouse, com mais pessoas que não conhecemos falando sobre pessoas que não conhecemos. Essa última interação entre a filha de Tina e a esposa de Lynch, Emily Stofle, é notável porque é a única alusão que temos referente ao que seja o que for o que está acontecendo com Audrey e o que for que tenha acontecido com Billy. Trazer um personagem tão icônico e depois apenas deixá-la de lado seria mais um motivo para criticar uma série com tantos personagens para administrar, mas agora nós desistimos de pensar que eles nunca irão amarrar tudo isso ao decorrer dos episódios. Talvez esse seja o ponto. O nó final de Twin Peaks deveria ter sido quando o assassinato de Laura Palmer foi solucionado e assim mesmo essas pessoas continuam lá, seguindo de maneiras diferentes controladas por esse terrível evento, pois no fim das contas a vida real também é assim. Nesse sentido, Twin Peaks é possivelmente a série mais fiel à realidade a ser exibida na televisão.

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O SÉTIMO CÉU DE SONNY JIM

Próximo a reta final da temporada e quando finalmente abandonamos a ansiedade de uma reviravolta no horizonte – aceitando que, talvez, o nosso Agente Cooper não volte nem tão cedo – que conseguimos ter uma visão ampla do quadro bizarro de Dougie Jones. O estranho universo do Dale Semi-Vegetal abre o episódio com uma trilha inesperada – tão quanto a da apresentação do Ike, the Spike -, a euforia inacreditável dos irmãos Mitchum, e mais personagens alheios às poucas palavras de Dougie. 

source (1)“Isn’t it too dreamy?”

Em meio a um ambiente tão próprio do Retorno, toda a situação de Anthony Sinclair (Tom Sizemore), acaba por se relacionar muito a um personagem, de curta aparição da segunda temporada: Ernie Niles. Sejam covardes ou com um enorme senso de autopreservação, os dois compartilham um modelo cômico clássico, surpreendentemente reutilizado na série. Assim como o provavelmente ex-padrasto de Norma serviu aos agentes do FBI na emboscada – e consequente morte – de Jean Renault (Michael Parks, falecido em Maio deste ano), Anthony é a chave para o flagrante de Duncan Todd e sua rede de policiais corruptos, consequentemente revelando o envolvimento do empresário com o Mr. C.

O INFERNO DE RAY

Mencionando o diabo, depois de exatamente três episódios ausente, ele reaparece, para a infelicidade de Ray, no centro de uma organização criminosa obscura. Todo o sistema dali dentro, aliado a perspectiva da apresentação de um novo ambiente, causam um súbito estranhamento. Descobrimos que, na verdade, o Monroe é subordinado a Ranzo (Derek Mears), o chefe da Fazenda – quase Clube da Luta da queda de braço -, e que, através de um desafio, sua vida seria completamente entregue ao Mr. C.

Reparando bem, não é que o Richard tem uma leve semelhança com o Ray? Estou teorizando demais? Ou são só as bochechas mesmo?

Após uma sequência quase hipnótica da disputa entre os dois, o Bad Cooper provou mais uma vez suas habilidades sobrenaturais, ganhado – e destruindo a cabeça do infeliz – ao final. Antes de morrer, Ray é interrogado, revelando informações importantes para o continuar da série: aparentemente, a tentativa de homicídio contra o Mr. C, na oitava parte, não se realizou pela falta de um item crucial.

“Com este anel, caso-te” – O Braço, Twin Peaks: Fire Walk With Me

Twin Peaks: The Missing Peaces

O Anel com a insígnia dos Lodges – elemento cuja primeira aparição se realizou em Fire Walk With Me –, serve aqui, aparentemente, como uma forma de transporte para o Black Lodge, no pós-morte. Uma das várias interpretações para o seu uso, é que ele simbolizava uma submissão/entrega da alma do indivíduo às criaturas do Lodge, firmando um “compromisso”. A última vez que foi visto – antes de ser pego, de alguma forma, por Phillip e em seguida, por Ray -, ele estava sendo usado pela réplica “manufaturada” de Dale Cooper, o Dougie Jones original, antes dele desaparecer e o objeto ser, novamente, guardado no altar. Antes do Retorno, vemos ele ser assaltado, por uma enfermeira, dos pertences de Annie Blackburn, quando esta estava em desacordada no hospital de Twin Peaks, numa das cenas deletadas do filme. Anteriormente, tanto Laura Palmer quando Teresa Banks utilizaram o anel, durante ou em períodos antes da sua morte, respectivamente. Há descrições, na História Secreta de Twin Peaks, do objeto e o fascínio causado por ele, que marcam desde o século XIX.

“QUE HISTÓRIA É ESSA, CHARLIE?!”

Ao passo em que nos aproximamos do fim do revival, cada vez mais pessoas se esforçam para teorizar e encontrar indícios de uma reviravolta ou de uma subversão da realidade, como de praxe numa obra do Lynch. Para esses, o episódio desta semana pode servir como um prato cheio, com tanto o discurso de Audrey, quanto mais um indício de uma provável falta de linearidade no tempo surgiram. Bobby, ao se juntar à mesa, com Norma e Ed, menciona ter encontrado algumas coisas envolvendo do seu pai. A última vez em que vimos uma descoberta do tipo, foi há 4 partes atrás e, desde então, tivemos a indicação de que, no mínimo, se passaram dois dias. Assim, ou a visita de Briggs, Hawk e Truman ao Palácio do Jack Rabbit nos foi omitida, ou então…

Eu sinto como se estivesse em outro lugar… e fosse outra pessoaNão tenho certeza de quem sou, mas eu não sou eu”. Esse é, realmente, o bê-a-bá do existencialismo e, à primeira vista, podemos supor que seja simplesmente uma crise causada pela idade, pelo o desaparecimento do Billy, ou então, algum reflexo de um trauma, causado pelo provável longo período em coma. Mas, pelo histórico do diretor – em Lost Highway, o protagonista simplesmente se transforma em outra pessoa; a trama de Mulholland Dr. e  de outras produções com situações semelhantes -, o pouco que sabemos sobre Audrey nesses 25 anos em que esteve ausente, pode tomar rumos inesperados.

Pelo menos, aparentemente, o Billy ainda não morreu – seja lá quem for ele.

CLIENTES FAMINTOS

O encontro entre Norma e Walter Lawford (Grant Goodeve), seu infelizmente novo interesse amoroso, proveu um dos paralelos mais explícitos da temporada. É obvia a falsa pretensão do empresário com o seu interesse na “essência” do Double R, e a comparação com a própria trajetória dos criadores da série na indústria, seja televisa ou cinematográfica, é tão evidente quanto. Tanto Mark Frost, quanto Lynch tiveram a qualidade de suas obras – no caso de Norma, tortas – notoriamente comprometidas pela interferência de executivos na produção – a  exemplo de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2006), co-escrito por Frost e Dune (1984), dirigido por Lynch, ambas produções relativamente infames e de grandes produtoras. Só nos resta esperar que ela mantenha o bom senso e não torne o medo dos outros o dela. 

No meio disso tudo, o melhor encontro entre criador e fã que você respeita.

Por fim, o episódio termina com um imenso contraste, entre o Retorno e a série original – mais especificamente, o seu lado mais novelesco. Cai o peso, aqui, da realidade na senilidade, da desilusão do romantismo na juventude e a sua não sustentação. Seja com Audrey e Cooper – ou Jack Wheeler (Billy Zane, coincidentemente o primeiro nome do atual amante dela), com quem ela se envolveu no fim da segunda temporada -, James e Donna a sumida e, principalmente, Norma e Big Ed, nenhum durou durante esses vinte e cinco anos. Nem mesmo o núcleo mais jovem consegue passar pela falta de filtro: Ao contrário do modo como era retratado a relação de seus pais, assistimos Becky sofrer pela ausência de Steven, sem o sútil tom que fazia o engajamento de Shelly e Bobby valer a pena – ainda hoje, como efeito disso, não conseguimos não torcer pelos dois.

sourcePara sempre, tocando repetidamente na sua cabeça. 

 

Uma sombra se expande sobre Twin Peaks. O horror e o pressentimento acerca de um futuro hediondo e obscuro, quase sempre recorrentes na série e na obras de Lynch, são os protagonistas da décima-segunda parte. A sensação de que algo está prestes a eclodir, presente desde o oitavo episódio – e que ganhou força em meados do último -, toma forma através dos diversos interlúdios – compostos por sequências, semelhante às que ocorrem na segunda temporada, da floresta, enevoada, à noite -, simbolismos e, nesta parte principalmente, o desconhecido.

Somos desafiados, no meio da temporada, a empatizar com ambientes e contextos que, mesmo com rostos familiares, desconhecemos quase que totalmente. E isso, por si só, é capaz de nos deixar tão apreensivos quanto Audrey, na sua primeira aparição. Ou, no pior dos casos, tão indiferentes quanto o Mr. C, em qualquer situação. Afinal, independente da reação, é impossível negar que esse exercício de constante conceptualização, do elemento mais surreal ou da situação mais absurdamente mundana, seja uma das maiores graças de Twin Peaks.

LET’S ROCK

Enfim, descobrimos a natureza do caso Blue Rose da forma mais inesperada possível: clara e simples. Não que o foi dito tenha sido totalmente inédito ou indedutível, mas é ótimo ter a origem do caso finalmente explanada. Como explicado pelo Albert, a operação surgiu da junção do FBI com um seleto grupo das forças militares, com o objetivo de investigar os furos e obstruções no Projeto Livro Azul, tendo como base uma abordagem não tradicional, relatada num livro que dá nome ao caso. Ainda, descobrimos também o estranho método utilizado na escolha de agentes.

Ouça os sons” – ????, S03E01

Apesar de ainda não sabermos a que a frase do Gigante (ou ????), na premiere, realmente se refere, ainda assim podemos dar à ela um certo nível de relevância no desenrolar deste episódio. Primeiro, acompanhamos, através da trilha – e da atuação da Chrysta Bell, que cresce a cada episódio -, o sentimento de realização de Tammy ao finalmente ser contratada na equipe especial de Gordon Cole. Logo em seguida, Diane, que vem sendo posta em vista grossa pela equipe – sem desconfiar de nada disso -, entra no aposento atravessando uma simbólica cortina vermelha aveludada e, após receber a proposta de Albert, profere a frase que dá nome ao episódio. A relação com o The Arm poderia ser mais uma coincidência, se não fosse o característico som distorcido de interferência – que não aparece desde o FWWM.

“ALGUMA COISA ACONTECEU COMIGO!”

Em um curiosa cena, num mercado ~ou loja de conveniência~, o mesmo efeito sonoro se repete. Sarah Palmer (Grace Zabriskie, um dos destaques do episódio), retorna depois da sua pequena aparição na primeira parte, assustando a todos com um aviso sinistro. As indagações que ela faz à atendente – que por sinal, é um tanto semelhante a própria Laura Palmer – lembram as frases soltas de Phillip Jeffries – já mencionado no episódio, na sua breve aparição em Seattle – e realmente não se referem à pacotes de carne defumada ao todo. “Você estava aqui quando eles vieram primeiro?”, talvez se refira a primeira manifestação dos seres de outra dimensão aos habitantes de Twin Peaks. E “Homens estão vindo! Homens estão vindo!” pode servir de aviso sobre a volta deles e, bem, eles tem um gosto por lojas. Afinal, o ventilador-de-teto da casa dos Palmer voltou a girar e nem isso, nem os barulhos vindos de dentro dela servem de bom presságio.

É uma maldita história ruim, não é, Hawk?

ESCAVE PARA FORA DESSA MERD* POR $29,99

Dougie/Cooper continua sendo… Dougie. No episódio dessa semana, sua aparição fica reservada à uma curta cena, um tanto desanimadora para quem espera pela sua volta. A desventura de Jerry Horne continua, com ele finalmente saindo da parte mais densa da mata, mesmo que ainda perdido.

Na sua loja de cortinas silenciosas, Nadine continua a assistir Lawrence Jacoby, com o seu show do Dr. Amp a todo vapor e pás. A abertura de sempre, seguida da já conhecida propaganda satírica, introduzem mais um discurso, mais uma vez voltado para as grandes corporações e… políticos. De alguma forma, pouco à pouco, eu me sinto cada vez mais convencido a comprar a minha própria pá dourada.

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É sempre ótimo ter Carl (Harry Dean Staton) na tela, seja dando caronas, tocando violão ou acompanhando o que ocorre no seu parque de trailers. A sua conversa com Kriscol foi um, dos diversos momentos mais humanos do episódio.

“VOCÊ NÃO VAI ME CONTAR O QUE ELA FALOU?!”

A parte 12 conseguiu, surpreendentemente, ser tão provocativa quantas as outras. É angustiante a forma quase perversa em que as cenas são desenvolvidas através de um acúmulo de expectativas para enfim terminar da forma mais anticlimática possível. Primeiro, nós, assim com Albert, acabamos nos intrometendo, sem querer, em um momento íntimo, entre Gordon e uma garota francesa. Nós esperamos, assim como Albert, a moça calçar os saltos, retocar o batom, arrumar o vestido e degustar mais um pouco de sua taça de vinho para, finalmente, ela deixar o quarto. Terminamos somente com uma declaração da apreensão de Cole para com o seu parceiro.

A volta da Audrey leva isto para outro nível. Durante toda a temporada, tivemos momentos que envolviam, direta ou indiretamente, à ela e ao que se passou durante esses 25 anos. Neste episódio em específico, o diálogo entre Frank Truman e Benjamin Horne, além de discutir sobre Richard e a estranha casualidade do aparecimento da chave do quarto de Cooper, tem insinuação mais explícita do parentesco do garoto. “Ele não teve um pai”, diz Ben, quase confirmando o horror que se passa na cabeça de todos nós. Ainda assim, a primeira aparição da Audrey não revela nada sobre o seu filho.

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Se Albert incorporou nós durante toda aquela cena com o Cole, ela faz o mesmo aqui. Ficamos sabendo do seu cônjuge com Charlie (o excelente Clark Middleton), resultado, provavelmente, de um contrato entre os dois. Apesar de terem, de certa forma, atingido uma relação “harmoniosa”, Audrey mantém abertamente para o seu marido, um caso com outro homem, também casado. O que aconteceu com Billy? Depois de um longo telefonema e uma discussão sobre casacos, a lua nova e papéis, ninguém, a não ser Tina (a esposa) e Charlie, sabe.

“Jogo interrompido”

Este é talvez o episódio mais movimentado que tivemos nessa temporada até então. Iniciamos a décima primeira parte com um calmo jogo de crianças que é interrompido pela visão sanguinolenta de Miriam Sullivan, que se arrasta em direção à elas em estado crítico. Ao que parece, Miriam conseguiu sobreviver ao violento ataque que sofreu de Richard no episódio anterior e se arrastou para fora de seu trailer antes que o pior acontecesse (lembrando que Richard deixou uma vela acesa e o gás do fogão vazando para que o trailer explodisse). Pelo visto de nada adiantou que o policial Chad interceptasse a carta enviada por Miriam para a delegacia, sendo que a própria está viva para contar à polícia o que viu no dia do atropelamento.

“Eu não tenho carro!”

tumblr_oto8e3JnUr1qaf8zvo2_1280Seguimos então para o camping de trailers Fat Trout, onde Becky recebe um telefonema sobre o marido Steven que a deixa com os nervos à flor da pele. Ela telefona para Shelly no RR e diz que precisa urgentemente utilizar seu carro. Shelly parte para socorrer a filha, mas ao chegar se depara com uma Becky fora de si, carregando uma arma. Shelly tenta impedir a saída da filha se jogando por cima do capô, mas Becky ignora a mãe e o carro segue seu curso. Desesperada, Shelly pede auxílio a Carl, que lhe dá uma carona e a ajuda a contactar Bobby na delegacia (o que confirma finalmente que Bobby é mesmo o pai de Becky).

Voltando à Becky, a garota entra como um raio em um prédio de apartamentos e esmurra uma das portas, chamando pelo marido. Ao não obter resposta, ela perde as estribeiras e atira diversas vezes contra a porta. O barulho dos tiros ecoa pelos corredores e nos leva até outro andar, onde encontramos Steve escondido ao lado de ninguém menos que… Gersten Hayward!

MV5BNDAzOTAzZWItNzE3Ny00NDkxLWJmNmMtM2QzNTQ2ZmFkMzFiXkEyXkFqcGdeQXVyNTI4MzI4NTQ@._V1_SY1000_CR0,0,1333,1000_AL_Lembram-se da irmã mais nova de Donna, a garota prodígio que tocava piano muitíssimo bem? Pois é, é com essa ruivinha que o marido de Becky aparentemente anda pulando a cerca.

“Não existe reforço para isso”

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Saindo um pouco de Twin Peaks, seguimos para Buckhorn, onde Gordon, Albert, Tammy, Diane e o detetive Macklay levam Bill Hastings até o local onde este diz ter tido seu encontro místico com o Major Briggs. O local parece ser uma casa abandonada e depredada. Gordon, Albert, Bill e Diane notam a presença de alguns Woodsman, os misteriosos “homens de graxa”, que circundam a casa aparecendo e desaparecendo e parecem “guardar” o local. Gordon e Albert adentram a propriedade, enquanto Tammy fica para trás lhes dando cobertura e Macklay permanece no carro vigiando Hastings.

Ao se aproximar da casa, Gordon nota uma espécie de fenda temporal que se abre no céu e parece tentar sugá-lo. Dentro da fenda, ele tem a visão de três Woodsman guardando a escadaria de um local escuro e depredado (o local se assemelha bastante aos corredores pelos quais Laura andou em seu sonho dentro do quadro em FWWM, inclusive possui o mesmo papel de parede florido. vale notar também que essa escada pode levar à sala onde as entidades do Black Lodge se reúnem, lembrem que o local de reunião fica em cima de uma loja de conveniência).

Ao perceber que Gordon está prestes a ser sugado, Albert o puxa para trás e a fenda desaparece (notem também que Albert que estava mais próximo percebeu a manifestação, mas os outros que ficaram para trás não). Ao continuarem a vasculhar o local, eles encontram o resto do corpo de Ruth Davenport jogado no terreno (apenas o corpo, lembrem que a cabeça foi encontrada no primeiro episódio acoplada ao corpo do Major Briggs). Enquanto fotografam o corpo, Diane nota um Woodsman se aproximando do carro onde estão Macklay e Hastings, e alguns segundos depois, a cabeça de Hastings é destroçada (ficando com a mesma aparência que os cadáveres de Sam e Tracey, mortos no primeiro episódio).

“Reunião familiar”

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De volta à Twin Peaks, Bobby e Shelly sentam com Becky no RR e tentam resolver a situação da filha. Becky diz odiar Steven mas ao mesmo tempo não quer deixá-lo, e nega que ele já tenha a agredido fisicamente (o que sabemos ser mentira, pelo o que vimos no último episódio). No meio da conversa, Shelly se ausenta para se encontrar com seu pretendente/namorado do lado de fora da lanchonete, e assim descobrimos que Bobby e Shelly não estão mais juntos. Não só isso, mas o pretendente de Shelly é Red, o traficante que faz truques de mágica (ou possui poderes?) que assustou Richard alguns episódios atrás. Ao que parece, Shelly continua gostando de bad boys.
É então que um tiro vindo do lado de fora faz com que Bobby saque sua arma e saia para investigar o ocorrido. Um garoto dentro de um carro no cruzamento em frente à lanchonete disparou a arma ao pegá-la para brincar. Ao mesmo tempo que tenta acalmar a mãe do garoto e o trânsito parado, Bobby nota que o garoto não só se veste como o pai negligente (ambos estão vestidos de farda), mas possui a mesma atitude de indiferença à toda a situação. A cena ilustra um ciclo de repetição comportamental que é passado de geração a geração, e que é visto também na família do próprio Bobby. Becky repete os mesmos erros que a mãe cometeu na juventude, se casou jovem com um homem abusivo e não sabe como largá-lo, e a própria Shelly continua se ligando a homens encrenqueiros, inclusive parece ter perdido o interesse em Bobby assim que ele se “endireitou”.

Se não bastasse todo o caos, Bobby vai tentar acalmar uma senhora que não pára de buzinar e gritar que precisa sair dali, pois está com uma passageira doente. A passageira, uma garotinha, se levanta do banco como um zumbi enquanto baba uma substância verde. Essa é talvez a passagem mais bizarra desta temporada até então. Terá essa cena algum significado, ou será apenas mais um momento Lynchiano wtf? Ou então será uma homenagem de Lynch aos filmes de zumbi de George Romero? Seria uma homenagem bastante irônica, já que Romero faleceu recentemente.

“Você nunca vai querer saber sobre isso”

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Na delegacia, Frank e Hawk conversam sobre a mensagem deixada dentro do dispositivo pelo Major Briggs. Hawk abre um mapa indígena muito antigo, onde mostra para Frank o local das coordenadas deixadas pelo Major, e também explica o significado de alguns símbolos. O símbolo do fogo pode ser bom ou ruim (dependendo da intenção por trás daquele fogo), o símbolo de um milharal significa vida e fertilidade, mas quando juntado com um fogo negro significa morte. Lembrem que o fogo é um símbolo proeminente entre os habitantes do Black Lodge, e o milho é a substância utilizada por eles como alimento (também chamada de garmonbozia). Frank nota no mapa um símbolo idêntico ao contido na mensagem do Major (o mesmo símbolo que também estava na carta de baralho que Mr. C mostrou à Darya no segundo episódio) e pergunta seu significado a Hawk, que diz “você nunca vai querer saber sobre isso”.

O telefone toca e Margaret transmite outra mensagem a Hawk: “existe fogo no lugar aonde eles estão indo” e seu tronco teme muito aquele fogo.

“Tremendo como vara verde”

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De volta à Bruckhorn, Albert, Gordon, Diane, Tammy e Macklay se reúnem na delegacia para tomar café e discutir os acontecimentos. Gordon nota que sua mão não pára de tremer desde o último acontecimento (lembrando que no final da segunda temporada, Cooper, Pete e uma senhora no RR também tiveram esse tremor na mão que permaneceu inexplicável). Diane omite o fato de ter visto o Woodsman se aproximar do carro para matar Hastings (ela diz tê-lo visto se afastando do carro e não se aproximando), e tenta sutilmente memorizar as coordenadas numéricas escritas no braço do cadáver de Ruth Davenport. Diane já foi pega trocando mensagens de texto com Mr. C. Será ela sua cúmplice por algum motivo?

“O que tem na caixa?”

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Finalmente em Las Vegas, Bushnell Mullins parabeniza Cooper/Dougie por ter (acidentalmente) desvendado as práticas ilícitas que ocorriam dentro da empresa pelas suas costas, e se dá conta que a empresa deve 30 milhões de dólares para os irmãos Mitchum, por conta de uma indenização não paga devido às falcatruas internas recém descobertas. Dougie, agora o “funcionário do mês”, é o enviado para entregar o pagamento aos irmãos pessoalmente. Na saída do prédio para o carro que irá conduzi-lo até o encontro, Cooper tem uma visão de Mike/o Homem Sem Braço na vitrine de uma loja, e obedientemente se dirige para lá, saindo logo em seguida com uma caixa contendo um presente para os irmãos.

Meanwhile, os irmãos Mitchum aguardam ansiosamente a chegada de Cooper/Dougie em um local ermo no deserto, onde pretendem apagar o homem que supostamente está lhes causando tanto prejuízo financeiro. Enquanto esperam, Bradley relata ao irmão o estranho sonho que teve na noite passada com o encontro que estão prestes a fazer, e que nele o machucado que Rodney traz no rosto já havia desaparecido. Ao olharem por baixo do curativo, o machucado não está mais lá (novamente Lynch utiliza elementos de sonho se incorporando à realidade, tema recorrente das temporadas anteriores e do filme). Ao ver Dougie chegando ao local carregando a caixa com o suposto presente, Rodney também se lembra de ter visto aquilo em seu sonho, e que no sonho Dougie na verdade não era um inimigo pois trazia um pagamento milionário para eles. Para comprovar se a situação real se assemelha ao que sonhou, ele decide verificar o conteúdo da caixa para saber se bate com o que viu, e sim, como no sonho, Dougie traz uma torta de cereja na caixa para os irmãos. Não só a torta, mas também o cheque de 30 milhões de dólares de indenização, o que faz os irmãos uivarem de felicidade e mudarem imediatamente de planos. O mais interessante foi saber que Mike de alguma forma conseguiu interferir no sonho de Rodney e plantar elementos que acabariam salvando a vida de Cooper mais tarde.

Não se sabe se a citação foi intencional ou não, mas é impossível ignorar a semelhança de toda essa sequência com a cena final do filme “Seven – Os Sete Crimes Capitais”, que também se passa em um deserto e também traz uma caixa bastante “misteriosa”.

Enfim, ao invés de ser apagado e enterrado, Dougie é levado pelos Mitchum para jantar em um restaurante finíssimo, e lá acontece o reencontro mais fofo dessa temporada. Lembram da velhinha que ganhou uma bolada no cassino ao seguir as indicações de Cooper? Ela aparece no restaurante cheia da grana, acompanhada pelo filho, e abraça e agradece Cooper por ter mudado radicalmente sua vida.

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E enquanto Cooper devora a torta de cereja, a música que o pianista do restaurante começa a tocar chama brevemente sua atenção (muitos fãs especularam que ela lembra Sycamore Trees, canção que ele ouviu logo que entrou no Black Lodge no fim da segunda temporada). Será? Aguardemos pra ver!

Até o próximo recap!

AVISO: CONTÉM SPOILERS

“Você certamente me deu muito para pensar”.

Estas foram as palavras do chefe de Dougie na companhia de seguros, mas também uma descrição bastante adequada para o mergulho desta semana no revival da série de David Lynch. Este foi um episódio de contemplação, tanto para aqueles na tela quanto para o público, cheio de longas e silenciosas tomadas enquanto os personagens encaram sem pestanejar a nova realidade diante deles.

Nós até conhecemos Diane, a secretária quase mística de Dale Cooper e destinatária de todas as fitas gravadas. Mas ainda não sabemos muito mais que isso, pois foi um evento testemunhado inteiramente pelo agente Albert: seu rosto paralisado sobre essa figura misteriosa, assim como nós diante da revelação de ela é interpretada por uma das parceiras favoritas de David Lynch, Laura Dern.

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Também persistiu a abordagem aleatória de Lynch para suas novas narrativas. A maior parte do episódio, de fato, não foi dedicada a Dale Cooper, mas a Richard Horne. O jovem perigoso que anteriormente vimos ameaçando mulheres no Bang Bang Bar. Seria ele o filho de Audrey? Talvez, embora essa que é uma das personagens favoritas dos fãs não tenha sido vista até agora.

Enquanto isso, Richard aparece quase como uma ferramenta para explorar a ideia de oposições. Tal conceito está presente na maior parte da série, especialmente no tom que sempre varia do terror/pesadelo à comédia absurda. Richard representa uma juventude irritada e impotente. Ele atropela uma criança com sua caminhonete e mal parece notar, deixando claro o quanto sua própria raiva o cega.

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Carl Rodd (Harry Dean Stanton), por outro lado, retorna diretamente de Fire Walk With Me com uma absoluta imagem de tranquilidade. Enquanto Richard comete seu crime e foge, Carl senta-se silenciosamente em um banco como se estivesse em comunhão com o mundo ao seu redor.

É Carl quem corre para ajudar a mãe e o seu filho e quem testemunha o que parece ser a alma do menino partir em direção ao céu. O que o levou a esse nível de serenidade, especialmente considerando o quão impetuoso ele foi em Fire Walk With Me? De fato, é importante como a série parece lidar com a forma como os personagens mudaram e amadureceram ao longo de 25 anos.

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Oposição também parece ser uma boa palavra para descrever Dale Cooper. Sua rotina atrapalhada continua em pleno vigor, com a inabalável curiosidade e inclinação para o mimetismo de um bebê que explora o mundo com um cachorro que foi repreendido por coisas que ele não tem consciência de que fez.

E apesar disso, temos que lidar com esses pequenos momentos de tristeza quando nos lembramos abruptamente que Cooper é um homem tentando chegar a um acordo consigo mesmo, especialmente quando as visões do Red Room atravessam sua realidade. Uma visão, por exemplo, de MIKE simplesmente dizendo: “Não morra”.

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Nós também estamos aprendendo um pouco sobre Dougie, que parece ter sua cota justa de inimigos, incluindo aqueles que desejam chantageá-lo com fotografias de sua aventura com Jade. Um problema que a esposa de Dougie, Janey-E, deve lidar já que este episódio coloca em prova o domínio absoluto de Naomi Watts como intérprete.

Ela combina perfeitamente na série de Lynch, assim como em Mulholland Drive, pelo simples fato de se comprometer tão plenamente a entregar as falas mais estranhas com total sinceridade. “Somos sempre os ferrados“, ela grita para os chantagistas. “E não seremos ferrados por vocês”. Ela mal dá a chance deles falarem uma palavra.

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Dito isto, esse episódio talvez possua um dos primeiros exemplos da abordagem distintiva de Lynch que não foi totalmente bem-sucedida, em específico na cena em que um homem comete um violento ataque seguido de assassinato contra uma mulher dentro de um escritório. Sabemos que o próximo alvo do assassino é Dougie.

Com a abordagem tão impressionista da narrativa, a falta de contexto quanto sobre quem é essa mulher versus a natureza explícita de sua morte (Lynch parece estar aproveitando plenamente a indulgência da televisão moderna em relação à violência) cria uma cena brutal e desconfortável, mas não necessariamente no caminho certo.

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