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Tag: ‘twin peaks’

Hoje o site de entretenimento Moviefone publicou uma entrevista com o ator Robert Forster, em que o ator foi questionado sobre Twin Peaks e comentou sobre sua experiência trabalhando com David Lynch. Forster já está confirmado no elenco da nova temporada e já trabalhou com Lynch em Cidade dos Sonhos. Há boatos que o ator assumiu o papel de Xerife Truman, que originalmente foi do ator Michael Ontkean. Por razões desconhecidas Ontkean não pôde retornar ao seriado para reprisar o papel.

Sabe-se também que o papel originalmente deveria ter sido de Forster, que na época estava comprometido com outro projeto e teve que recusá-lo.

Separamos abaixo o trecho da entrevista em que o ator foi questionado sobre Twin Peaks.

E você tem mais um personagem de uniforme chegando, um policial, em “Twin Peaks” de David Lynch. O que esse trabalho teve de empolgante, ou talvez de assustador, já que você está ocupando o papel que foi de outro ator?

Bem, primeiramente, eu estou sob a compulsão de não poder comentar esse trabalho. Eu posso agora confirmá-lo já que anunciaram que estou no seriado — juntamente com 216 atores. Que elenco enorme! David Lynch, que grande pessoa ele é. Ele queria ter me contratado para a série original, 25 anos atrás, mas eu estava comprometido com o piloto de uma série que acabou não se realizando. Então não participei da série original, o que com certeza teria mudado minha vida. Se você relembrar a época foi um hit gigantesco, um fenômeno. Mas não participei.

Tempo depois ele me contratou para “Cidade dos Sonhos”, que seria uma série de televisão, mas não deu certo. A série não casou com a programação. Então ele comprou os direitos, filmou mais algumas coisas e transformou-a em um filme maravilhoso. E dessa vez eu recebi uma ligação dos meus agentes e eles disseram que David Lynch iria me ligar. Ele me ligou e cinco minutos depois ele disse “Eu gostaria que você viesse e trabalhasse comigo de novo” e eu respondi, “O que quer que seja David, estou a caminho”.

Então apesar de não poder comentar minha participação, posso te falar que ele é um dos grandes artistas desse meio, e ele faz coisas que… quando ele precisa de algo, todo mundo se esforça e faz acontecer. O que mais? Ele é uma dessas pessoas que, durante a gravação, você escuta dizer “ação”, “corta” e o escuta também remoendo seus pensamentos por alguns minutos, e todos ficam em silêncio esperando o que ele vai dizer. E às vezes ele diz, “vamos gravar de novo” ou então ele diz, “Okay, deu certo. Vamos em frente”. Esse é um cara que reconhece quando filmou uma grande cena e que segue em frente. É uma modalidade artística reconhecer a força de uma cena gravada, ou se a cena irá ou não satisfazer suas necessidades.

Ele é um artista, e não existem muitos. Alexander Payne também. Eles são boas pessoas e bons diretores. E Quentin [Tarantino] também. Nossa, eu trabalhei com ótimos diretores, desde John Huston, Robert Mulligan e muitos outros. O que posso dizer? Trabalhar com David foi uma grande alegria, e espero viver o suficiente para ter a chance de fazê-lo novamente.

Leia o texto original aqui.

O site de notícias Entertainment Weekly entrou essa semana em contato com a atriz Piper Laurie, que interpretou Catherine Martell nas duas primeiras temporadas de Twin Peaks, para que Laurie comentasse a ausência de seu nome na lista de atores que compõe o elenco da nova temporada. De acordo com o site, a atriz declarou não ter sido chamada de volta. 

“Eu deixei muito claro para David e para a equipe que adoraria voltar. Tive uma experiência maravilhosa na série original e ganhei vários prêmios. Estou surpresa e não tenho idéia por que não fui chamada de volta”. A atriz, que já foi indicada ao Oscar três vezes, comentou que só soube que o revival estava acontecendo pelas notícias que saíram na imprensa. “Eu mandei um recado para David dizendo que adoraria voltar, mas acho que grande parte do material do qual eu fazia parte não envolvia os aspectos mais sombrios do seriado, e eu imagino que é esse caminho que David e Mark estejam tomando, eu sinceramente não sei. Minha personagem estava no lado mais bobo, cômico”. Porém a atriz comentou sobre o revival de maneira otimista e bem humorada: “Claro que vou assistir [os novos episódios]. Acho que David irá explorar novos territórios. Ele é muito aventureiro, e tem uma mente maravilhosa. Não tenho motivos para achar que não será um grande sucesso”

Entertainment Weekly também tentou entrar em contato com as atrizes Joan Chen (Josie Packard), Heather Graham (Annie Blackburn) e com o ator Michael J. Anderson (anão) para comentários. 

Uma fonte próxima de Joan Chen contou ao site de notícias que Lynch e Mark Frost tentaram encontrar um meio para que ela voltasse. Lynch não conseguiu encontrar algo pra ela e Piper Laurie que fizesse sentido. Eles conversaram, mas não conseguiram encontrar um meio pra ela voltar. Ela não ficou zangada. Se ela estivesse envolvida, faria um comentário.

Já Heather Graham e Mike Anderson preferiram não fazer comentários. Estranho, sendo que Graham já comentou em uma entrevista há alguns meses não estar envolvida no revival, enquanto que Anderson não foi nada discreto ao postar em seu Facebook seus desentendimentos com o canal Showtime que o fizeram desistir de retornar.

 

“Querido Diário, Acabei de ter um sonho que me fez acreditar que não vou dormir esta noite. Eu estava no quarto. Estava completamente vazio, e eu me sentia mal por isso. Era como se a culpa fosse minha por não ter nada nele. Eu estava encolhida a um canto do quarto, olhando para aquele ponto na outra extremidade, porque sabia que alguma coisa iria aparecer, logo, logo. Pouco depois comecei a sentir muito frio. Achei que tinha visto alguma coisa, mas desapareceu. Então olhei adiante porque estava tentando encontrar a porta que dava para o outro quarto, porque queria ver se havia móveis lá. Eu me sentia muito mal por alguma coisa e queria entender, para que eu pudesse parar de me sentir tão… culpada. Acho que era isso o que eu sentia: culpa…”

Lançado pela primeira vez no Brasil pela editora Globo em 1991, O Diário Secreto de Laura Palmer (um complemento para a série), escrito pela filha de David, Jennifer Lynch, volta as estantes pela mesma editora com uma nova capa este ano após de muito tempo fora de estoque e apenas sendo encontrado em sebos, estante virtual, mercado livre etc.

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Capa da primeira edição e a nova capa.

Na época quando lançado, muitos acreditaram e alguns acreditam na estória que abalou Twin Peaks. A rainha do baile que foi brutalmente assassinada aparentemente sem motivo algum… e que no fim ela não aparentava o que fingia ser.

Quem matou Laura Palmer?

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O número três é um número importante na Sala de Espera (The Waiting Room). Há três cadeiras, três espíritos, três lâmpadas e três círculos principais de luz. Em todas as cenas na Sala de Espera, há sempre três espíritos na sala. Na sala há também uma das três partes do espaço extradimensional; os outros dois são The Black Lodge e The White Lodge.

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Twin Peaks sempre foi mais sobre deleitar-se na escuridão Lynchniana do que resolver um assassinato.

 

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Trecho tirado de David Lynch: The Man From Another Place de Dennis Lim, disponível pela New Harvest. Traduzido por Igor Leoni.

O matagal burocrático das redes de televisão era com certeza um anátema para um artista como David Lynch que valorizava controle. Lynch sempre foi aberto sobre as incoveniências do formato televisivo: a qualidade inferior de imagem e som e as rudes intrusões de pausas comerciais, pouco propícias para quem gosta de mergulhar em uma história. “Seria absurdo ter uma grande sinfonia tocando, e após cada movimento, quatro pessoas diferentes entrariam para tocar seus próprios jingles e vender algo,” ele reclamou para a revista Rolling Stone antes que o piloto de Twin Peaks fosse ao ar.

Ainda assim, televisão era, como qualquer criança dos anos 50 sabe, o meio que formava a autoconsciência americana, ainda mais que filmes. Lynch contou a um entrevistador francês que apreciava a suscetibilidade dos telespectadores de televisão: “As pessoas estão em suas casas e nada as incomoda. Elas estão confortáveis para mergulhar em um sonho.” Porém ainda predominante na época, o estereótipo negativo da TV de tubo, com seu efeito narcotizante em uma audiência passiva, apenas atestava seus poderes sinistros, sua habilidade de atingir pessoas em sua intimidade (em seus lares, o “lugar onde as coisas podem dar errado”). O formato de série também permitiu a Lynch experimentar com uma narrativa imersiva — em seus termos quase infantis, viver dentro de uma história e mantê-la viva o máximo possível. Ele havia feito o mesmo com Eraserhead — quando se refugiou na mente de Henry e chafurdou em seu mundo por anos — e faria de novo com Império dos Sonhos, dando forma, intermitentemente, para uma história que ainda não tinha se revelado para ele totalmente. Com Twin Peaks, Lynch e seu co-criador, Mark Frost, poderiam desemaranhar uma história quase em tempo real, ao mesmo tempo que iriam descobri-la, trazendo também os telespectadores para esse desconhecido.

Mark Frost e David Lynch

Para compreender o efeito sísmico de Twin Peaks, ajuda entender o cenário no qual a série emergiu. O terreno televisivo dos anos 80 era menor, e mais seguro. Isso foi pelo menos uma década antes do termo showrunner se tornar comum na linguagem da cultura-pop, antes de começarmos a associar séries de sucesso com seus criadores: David Chase (Família Soprano), Joss Whedon (Buffy – A Caça Vampiros), David Simon (The Wire). Havia exceções parciais — a extremamente popular série antológica dos anos 50-60 Alfred Hitchcock Presents, na qual o rotundo Hitchcock, que a essa altura já era praticamente uma marca, servia como apresentador e diretor ocasional, e a série dos anos 80 de Michael Mann Miami Vice, que introduziu o traço expressionista típico da MTV em séries policiais procedural — mas cineastas raramente lidavam com este formato comparativamente mais simplório.

Essa também era uma época de incertezas no ramo de televisão, depois de uma década que havia visto o domínio dos canais oligárquicos (ABC, CBS, e NBC) ameaçados pelo crescimento dos canais a cabo e das vídeolocadoras. A ABC, em terceiro lugar em audiência entre os três canais de sinal aberto, estava mais disposta — ou desesperada — a arriscar. Independente da resposta do público, haveria interesse garantido por parte da imprensa em uma série criada por Lynch, indicado ao Oscar duas vezes e o novo favorito dos críticos após Veludo Azul, e Frost, indicado ao Emmy e de ótima reputação.

Quando planejaram a série, Lynch e Frost não tinham identificado o assassino — ainda não sabiam quem era. Ao invés disso, deram ênfase no clima e no espírito do lugar e explicaram que o mistério do assassinato iria recuar com o tempo, dando espaço para outros personagens e histórias. O piloto foi filmado em fevereiro e março de 1989 (também o período dos acontecimentos da história), em 23 dias, nos arredores de Seattle e no centro de Washington, ficando um pouco abaixo do orçamento de 4 milhões. O canal comissionou mais sete episódios: menos da metade do número de episódios de uma temporada. Independente se os executivos gostaram ou não, o piloto era muito estranho para que eles arriscassem qualquer intervenção criativa: Era “tão diferente do que eles estavam acostumados que sequer conseguiram presumir para nos dizer como fazer melhor ou diferente,” Frost contou à Rolling Stone.

TWIN PEAKS

O barulho do hype começou no final de 1989. O primeiro artigo sobre Twin Peaks apareceu na edição de setembro da revista Connoisseur, entitulado “A Série Que Irá Mudar a TV Para Sempre.” Twin Peaks acabou se tornando um fenômeno de vida curta, indo do piloto para seu final em meros 14 meses. É difícil sobrestimar o impacto da estréia de duas horas, que atingiu 35 milhões de norte americanos, um terço dos telespectadores do país, em 8 de abril de 1990. Nunca antes, e desde então, uma série de televisão forçou tantos ao mesmo tempo a ponderar a questão essencial do universo lynchiano: Como devemos nos sentir sobre isso?

Twin Peaks não quebrou as regras da dramaturgia televisiva tanto quanto sutilmente perturbou-as. A série diminuiu seu ritmo narrativo e desestabilizou a temperatura emocional. Também expandiu o vocabulário da tela pequena, abandonando a norma de planos médios discretos e trazendo composições refinadas, com um rico, sutilmente estilizado jogo de cores (é dito que Lynch chegou a banir adereços azuis).

Mas toda a inovação foi só um dos motivos que tornaram o seriado um fenômeno em tão pouco tempo, e talvez nem seja o principal. Desde a insinuação brincalhona a seios acolhedores contida no título da série, Twin Peaks privilegia conforto, talvez de variedade regressiva, começando com a suave música de abertura de Angelo Badalamenti, um casulo uterino de exuberante música ambiente à base de sintetizador. (Em uma entrevista gravada para o DVD, Badalamenti lembra ter improvisado a música em seu piano Rhodes com Lynch a seu lado definindo o clima: “OK, Angelo, estamos em uma floresta escura agora, e há um vento suave através dos sicômoros…”) Mesmo com todas as coisas terríveis que vão acontecendo e os terrores que espreitam na escuridão, a vida é boa em Twin Peaks, como Cooper observa repetidamente, pausando para exaltar o ar puro da região e o doce prazer caseiro de tortas de cereja e donuts com geleia. (Lynch frequentemente se refere a açúcar como uma “felicidade granulada.”) Como em Veludo Azul, a série ativou a nostalgia da geração baby boom por aparentar se passar simultaneamente na época presente e nos anos 50.

Já existiam fãs obcecados por televisão antes de Twin Peaks — os Trekkers, devotos de Star Trek, obviamente —mas a série introduziu um novo tipo de culto. Twin Peaks era um texto de cultura em massa que pedia por decodificação coletiva, um paraíso semiótico de pistas, símbolos e distrações. Adequado igualmente ao escrutínio de fanzines e dissertações, foi o show mais gravado da televisão (na complicada época do VHS) e encorajou artigos minuciosos atípicos de críticos de TV do Los Angeles Times e do New York Post, os quais chegaram até a conduzir análises cena-por-cena de episódios chave. O assassinato de Laura Palmer foi apenas o primeiro mistério e o gancho principal de marketing; as sequências de sonho e as forças sobrenaturais sugeriam uma mitologia subjacente para se analisar e desvendar. Em entrevistas na época, Frost se referiu à série, em terminologia pós modernista, como “uma pilha de compostagem cultural.” Twin Peaks presenteou telespectadores cinéfilos com referências a clássicos de Hollywood: O nome de Laura lembrou outro famoso elemento ausente, a personagem título do clássico noir de Otto Preminger de 1944; e chamar sua dublê de Madeleine foi uma referência óbvia a Um Corpo Que Cai de Hitchcock (1958).

Sem título

A audiência caiu após as primeiras semanas, mas muitos dos fãs que permaneceram — por volta de 17 milhões, metade do número inicial, um mês após a estréia —estavam realmente antenados. Muito antes dos recaps e dos tweets ao vivo, Twin Peaks foi um fenômeno pré internet. Na época em que fóruns de mensagens eletrônicas eram somente de domínio de acadêmicos e pesquisadores, o grupo de discussão alt.tv.twinpeaks tinha em média 25,000 seguidores e de 100 a 200 posts por semana em épocas de pico.

O que os fãs de Twin Peaks tinham em comum — seja teorizando pela Internet; explorando locais de filmagem pelo Noroeste Pacífico; ou no Japão, onde o interesse era bastante intenso, encenando funerais falsos para Laura Palmer — era um desejo de existir por mais tempo nesse mundo. Os produtores, trabalhando com Lynch e Frost, alimentaram esse desejo criando merchandisings extratextuais que expandiam o universo da série, incluindo dois livros em formato de diário (contados dos pontos de vista de Laura Palmer e do Agente Cooper) e um guia turístico da cidade. Enquanto os fãs mais leais estavam contentes em permanecer indefinidamente em Twin Peaks, muitos telespectadores contavam que a série cumprisse a promessa de uma solução.

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A pergunta “o que matou Twin Peaks” é inextricavelmente ligada à de “quem matou Laura Palmer”. Quando a série identificou o culpado, também cometeu uma espécie de suicídio simbólico. Pelo menos é o que se diz. Mas um olhar mais minucioso na subida e na queda de Twin Peaks sugere que o seriado poderia já estar condenado desde o início, devido à desconfiança e ao ceticismo que acompanharam o hype. Em um artigo do Washington Post de setembro de 1989, seis meses antes da estréia do piloto, o executivo da NBC Brandon Tartikoff disse: “Eu provavelmente gostaria de viver em um país onde algo assim poderia funcionar, mas suspeito que será uma estrada íngreme para eles.” A maioria das reportagens que antecederam a premiere foram notáveis por suas hipérboles mas também pelas constantes insinuações que Lynch não estaria preparado para o horário nobre. “Será o rei do excêntrico de Hollywood muito esquisito para a TV?” questionou a New York Times Magazine. Questionado pelo Los Angeles Times se conseguiria dar uma resolução convencional para um mistério, Lynch perdeu a paciência: “Encerramento. Eu continuo ouvindo essa palavra…Assim que uma série tem um sentido de encerramento, ela te dá uma desculpa para esquecer que viu a porcaria toda.” Para Lynch, a atração no formato de série estava precisamente na liberdade que este oferecia, mesmo que momentânea, de obrigações como encerramentos.

Frost e Lynch sempre sustentaram que identificaram Leland como assassino desde o início. “Nós sabíamos, mas nem sussurrávamos sobre enquanto trabalhávamos,” Lynch contou a Chris Rodley. “Nós tentamos manter a informação fora do consciente de nossas mentes.” O relato de Lynch sobre o processo indica que ele trabalhava com certo grau de espontaneidade. O personagem BOB, o demônio encarnado da série, e a Sala Vermelha, a icônica realidade alternativa, não ocorreram a ele até que o piloto já estivesse bastante adiantado.

A narrativa dominante na mídia — até mesmo na esquete do Saturday Night Live acima, em que Kyle MacLachlan, no papel de Cooper, idioticamente ignora claras evidências sobre o assassino — era que Twin Peaks estava brincando com seus telespectadores. Para a emissora e uma grande parte da audiência, em uma época em que a maioria das séries amarravam finais deixados em aberto e voltavam ao status quo em tempo para o noticiário noturno, a ideia que os criadores de Twin Peaks estariam inventando coisas enquanto escreviam foi causa para alarme. “É bom que a série seja capaz de satisfazer os telespectadores amantes de mistério desmamados de Columbo e Perry Mason,” o Chicago Tribune alertou antes mesmo que o piloto de Twin Peaks fosse ao ar. Com o início da segunda temporada, sem nenhuma resposta clara à vista, o crítico de TV do Orlando Sentinel reclamou: “Eu não gosto de ser feito de idiota.”

Executivos nervosos da ABC convocaram Lynch e Frost para uma série de reuniões e extraíram deles à força uma garantia de que o assassinato seria resolvido o mais cedo possível. Com grande alarde, a emissora publicou anúncios em jornais que precederam o sétimo episódio da segunda temporada: “Finalmente. Sábado, 10 de novembro. Descubra quem matou Laura Palmer. Sério.” Lynch e Frost não contaram a ninguém que Leland era o assassino até que absolutamente tiveram que fazê-lo. O ator Ray Wise descobriu pouco antes de receber o script para o episódio.

Os episódios que seguiram a revelação foram dominados por plots menos criteriosos envolvendo aliens, encenações da guerra civil e um David Duchovny pré Arquivo-X como um agente do FBI transgênero. Frost e principalmente Lynch estavam apenas perifericamente envolvidos durante longos períodos da segunda temporada. Frost estava preparando sua estréia na direção, Storyville -Um Jogo Perigoso, e Lynch estava ocupado com a estréia de Coração Selvagem e com uma exposição no Museu de Arte Contemporânea em Tóquio.

No que foi amplamente visto como uma maneira de sacrificar a série, a ABC mudou Twin Peaks para o horário mortal de sábado à noite no início da segunda temporada. A audiência continuou a decair, e em fevereiro de 1991, a emissora colocou a série em hiato, para ira dos fãs inveterados, que formaram um grupo chamado COOP, the Coalition Opposed to Offing Peaks (a Coalizão que se Opõe ao Desligamento de Peaks), e montaram uma campanha para enviar cartas. Lynch apareceu no Late Show With David Letterman (vídeo acima) para protestar contra o horário de sábado —explicando que os fãs de Peaks eram “pessoas festeiras”— e encorajou os telespectadores a escreverem para Bob Iger, presidente da divisão de entretenimento da ABC, para manter a série no ar. A ABC, que recebeu mais de 10,000 cartas, concordou algumas semanas depois em deixar Lynch e Frost terminarem a temporada no horário original da série às quintas, mas o destino da série já parecia óbvio.

Lynch retornou ao set de Twin Peaks em março de 1991 para dirigir o final da temporada sabendo que provavelmente seria o último episódio. A perspectiva de finalidade não compeliu Lynch a dar encerramento às coisas mas deixá-las ainda mais em aberto. Uma cena na lanchonete do piloto, em um inquietante momento de déjà vu, se desenrola novamente, palavra por palavra. O Black Lodge, muito discutido em episódios anteriores como um purgatório do mundo espiritual, acabou por conter a Sala Vermelha de Lynch. Quase metade do episódio — talvez ainda a mais maluca e perturbadora hora já vista na televisão —consiste em Cooper avançando pelos recessos cortinados da Sala Vermelha/Black Lodge, onde luzes piscam, todos falam ao contrário, o café se torno grosso como piche, e o tempo parece não sair do lugar. Ele encontra as forças sobrenaturais do seriado, BOB e o Anão, além de seu próprio reflexo maligno. Os dois Coopers se perseguem através da sala mas apenas um emerge do lado de fora. Twin Peaks termina com Cooper, de volta em seu quarto de hotel, batendo sua cabeça no espelho do banheiro, rindo de maneira maníaca enquanto vê BOB refletido no espelho quebrado. Lynch terminou a série trazendo-a de volta às suas obsessões, enxugando horas de estranheza crítica com um abrupto, arrepiante retorno para a escuridão interna.

O autor do artigo Dennis Lim é diretor editorial no Museum of the Moving Image e um contribuinte regular do New York Times e do Los Angeles Times.