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AVISO: CONTÉM SPOILERS

Foram mais de duas décadas de espera para que a promessa de Laura Palmer fosse cumprida – “eu verei você novamente em 25 anos” – e no dia 21 de maio de 2017, Laura finalmente reapareceu e quase timidamente nos pergunta se a reconhecemos. Este foi o primeiro sinal de David Lynch e Mark Frost para nos avisar que de fato, apesar de ser uma terceira temporada da série cult dos anos 90, o tempo mudou Twin Peaks.

A começar pela abertura da série: o pássaro, a serralheria Packard e a famosa entrada da cidade de Twin Peaks se foram. No lugar, um close do retrato de Laura Palmer serve de fundo para o título, seguido por uma sequência familiar de uma cachoeira e fechando com imagens do black lodge. A trilha sonora marcante de Angelo Badalamenti permanece a mesma.

Na primeira cena inédita, temos um diálogo entre o Gigante e Dale Cooper.

“Lembre-se: 430, Richard e Linda. Dois pássaros com uma pedra”.

A atmosfera dessa introdução misteriosa nos diz que nada do que virá a seguir é o que parece ser. O enredo do retorno de Twin Peaks possui muito mais do mistério e enigmas vistos nos filmes de Lynch­, tais como Eraserhead, Lost Highway­­ e Mulholland Drive.­ Os segmentos criados durante o episódio nos dá a sensação de que tudo está conectado e nós estamos entrando cada vez mais a fundo no universo Lynchiano, nos seduzindo de forma perturbadora.

Diferente do piloto exibido nos anos 90 que deu ao telespectador uma linha de raciocínio lógica à ser seguida, – descobrir quem era o assassino de Laura Palmer – dessa vez não sabemos ao certo onde procurar por respostas, pois as perguntas se tornaram mais complexas. Um dos quebra-cabeças nos é introduzido logo no início: a caixa de vidro. O que ela realmente é e para qual fim foi construída? O que era a criatura que matou os jovens Sam e Tracey em Nova York? Mesmo criadas teorias sobre isso, quando se trata de Lynch tudo não passa de meras especulações.

Foi incluído também o uso de novos elementos gráficos, como o ser do black lodge que se identifica como “o braço”, evolução do membro de MIKE – o braço faz o papel de um intermediário e diz a Cooper que seu doppelganger deve retornar antes que ele possa sair. Não só para a criação de novos seres, a tecnologia auxiliou na composição brutal dos assassinatos que ocorreram durante as primeiras partes da nova temporada, algo visualmente incomum e que não agradou à todos. Entretanto, há quem diga que a falta de veracidade dessas cenas fazem sentido dentro da temática surrealista que está ainda mais evidente nesta nova etapa da série.

Nos deparamos com cenas sutis e nostálgicas ao ver os irmãos Horne no Great Northern Hotel em contraste com momentos mais misteriosos como a ligação entre Margaret/The Log Lady e o subdelegado Hawk, momentos antes do mesmo encontrar a entrada para o black lodge.

“As estrelas se voltam e o tempo se apresenta.”

Tudo parece novo, mas estamos redescobrindo até mesmo quem são as personagens que já conhecemos. Retornar para um lugar que passou por mudanças ao longo de 25 anos faz com que o telespectador pense “parece que já estive aqui, mas não tenho certeza”. O trabalho de David Lynch como diretor é marcante, dando a certeza de que aquilo que estamos vendo na tela é fruto de sua mente.

Nos resta então, continuar acompanhando os mistérios que agora não rodeiam somente Twin Peaks. Neste retorno mais do que nunca as corujas não são o que parecem ser.

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